quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Gengis Khan

Gengis Khan, (1162 — 18 de agosto de 1227) foi um conquistador e imperador mongol, nascido com o nome de Temudjin nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal.

Gengis Khan nasceu cercado de lendas xamânicas sobre a vinda de um lobo cinzento que devoraria toda a Terra. Ainda jovem matou o lobo e ficou muito famoso em sua tribo. Enfrentou a rejeição de sua família por seu próprio clã, mas voltaria para conquistar sua liderança, vencer seus rivais de clãs distintos e unificar os povos mongóis sob seu comando. 

Estrategista brilhante, com hábeis arqueiros montados à sua disposição, venceu a grande muralha da China, conquistou aquele país e estendeu o seu império em direção ao oeste e ao sul. Gengis morreria antes de ver seu império alcançar sua extensão máxima, mas todos os líderes mongóis posteriores associariam sua própria glória às conquistas de Gengis Khan, "que foi um dos comandantes militares mais bem sucedidos da história da humanidade". Segundo levantamento feito pela revista Mundo Estranho, ele foi o imperador que mais territórios conquistou na história, dominando quase 20 milhões de km² (o equivalente a 2,3 vezes do território brasileiro).

Juventude 

Temujin nasceu de maneira insignificante, em um lugar remoto da Mongólia, por volta de 1162, em uma das diversas tribos rivais da estepe. Quando tinha 9 anos, a tribo rival dos tártaros assassinou seu pai, e então a família precisou fugir para o exílio. Temujin teve de lutar pela supremacia dentro da própria família; matou seu meio irmão mais velho por ele ter ostensivamente roubado um animal que ele próprio abatera numa caçada. 

Temujin casou-se com a idade de 16 anos, mas uma tribo rival sequestrou sua esposa. Embora ele rapidamente a tivesse trazido de volta, ela apareceu grávida, de modo que a paternidade daquele filho, seu primogênito, sempre foi posta em dúvida. Por fim, Temujin se ligou a um líder de tribo que era muito conhecido por, ocasionalmente, ferver a carne de prisioneiros vivos em um caldeirão.

Pessoalmente carismático, Temujin reunia seguidores entre outros indivíduos desvalidos, o que significava que seus acólitos deviam tudo que tinham a ele, e não a um acidente de nascimento. Ele valorizava tanto a lealdade que, mesmo quando a deslealdade entre seus inimigos lhe era vantajosa, o culpado era punido. Numa determinada cidade, os soldados da guarnição se esgueiraram e abriram os portões para que seu exército entrasse. Gêngis Khan mandou-os executar sua traição.

Ascensão

A maior parte da carreira de Temujin foi passada consolidando as tribos das pastagens da Mongólia numa única nação guerreira. Ele incorporou e conquistou tribos para seu exército, espalhando-as por sua organização. Os mongóis vieram a constituir mais um exército do que uma etnia, uma fusão de diferentes clãs que abandonaram seus pequenos feudos e uniram-se e se subordinaram a Temujin. Depois de muitos anos de matança, uma reunião de tribos recentemente unidas, em 1206, proclamou Temujin seu Gêngis Khan, senhor do Universo. 

Com um exército tão poderoso, Gengis Khan resolveu partir para o sul e invadir as terras do reino de Hsi Hsia, também chamado de Xixia, vassalos do império chinês, que, nessa época, se dividia em duas dinastias: o império Jin, ao norte e o império Song, ao sul. Pela primeira vez, os mongóis tiveram de enfrentar cidades muradas. Sem ainda conhecerem ou dominarem as máquinas de cerco, a capital não pôde ser conquistada. Porém, diante da recusa do império Jin em mandar um exército ao auxílio ao reino Xixia, este se submeteu ao poderio militar dos mongóis e lhes pagou um grande tributo que incluiu a filha de seu governante, dada como segunda esposa a Gengis Khan.

Táticas de guerra  

Gengis criou táticas de guerra revolucionárias para as batalhas nas estepes. Seu exército era disciplinado, temido e impiedoso. A arma tradicional dos mongóis era o arco e flecha composto, que tinha um alcance de 500 metros, com isso tornou obrigatório o treinamento dessa arma. Os cavaleiros eram treinados para atirar a flecha com o cavalo em movimento. Um detalhe era que, para maior precisão, a flecha era disparada no momento em que o cavalo estivesse em pleno galope. Esses cavaleiros, os chamados mangudais, eram uma arma poderosa contra infantaria inimiga, já que juntavam dois princípios: arco e flecha e cavalaria, ou seja, um mangudai poderia ser rápido e preciso para atingir os inimigos mesmo estando longe. O arco curvo mongol era até mais potente que os famosos arcos longos utilizados pelos ingleses com grande êxito em batalhas contra os franceses durante a guerra dos cem anos.

Conquistas

Em 1207-1208, os mongóis foram forçados a expandir seu território de pastagem devido a algum problema climático nas estepes e conquistaram o reino tangute de Hsi Hsia. Em seguida, atravessaram a muralha contornando-a e chegaram à China, cujo reino estava dividido entre as dinastias Jin, ao norte e Song, ao sul. As vastas plantações de arroz e a riqueza da cidade atraíram mais a atenção de Genghis do que a possibilidade de se tornar senhor da China. Na conquista do reino Jin, Genghis Khan recrutou um jovem chinês chamado Yeh-lu Ch'u-ts'-ai como seu conselheiro pessoal. A sua influência tornou Genghis mais tolerante e menos agressivo em batalha, estimulando-o a evitar esforços exagerados na guerra e conservar as terras cultivadas ao invés de transformá-las em pastagens.

Gengis marchou até Pequim, o mais avançado centro urbano daquela época e, quando viu que a cidade era cercada de muralhas de doze metros de altura, descobriu que suas táticas de guerra em campo aberto, nas estepes, não o ajudariam naquele momento. Desse modo, não teve pressa e acampou seu exército, cercando a cidade e impediu que os suprimentos entrassem em Pequim. Esses suprimentos foram usados para suprir seu exército. Com a ajuda de engenheiros chineses dissidentes, construiu catapultas e outros artefatos bélicos e finalmente invadiu e dominou Pequim. Gengis, após o ataque inicial aos Jin, retirou-se para a Mongólia, enquanto seus generais se encarregavam de estabelecer seu domínio na China Jin. 

Em 1218, um acidente diplomático provocou a ira de Genghis sobre o reino turco de Kharizm, no norte da Pérsia: um mensageiro trouxe-lhe a cabeça de um de seus generais enviado em missão diplomática à Pérsia. O Cã cavalgou à frente de mais de duzentos mil homens e cerca de dez mil máquinas de assédio adquiridas dos chineses. Houve poucas batalhas campais e os mongóis empreenderam guerras de cerco às cidades fortificadas da Pérsia, que capturaram uma a uma. Algumas, como Bucara e Samarcanda se tornariam, no futuro, espelhos longínquos da presença mongol no sudoeste da Ásia. A velha cidade de Nichapur foi arrasada e nem mesmo os animais ali sobreviveram ao ataque mongol. O exército de Genghis matou mais de um milhão de persas.

As perdas humanas em Khwarizm contavam-se aos milhares. Genghis e seus generais impunham punições brutais aos inimigos. A proximidade da Pérsia com a Europa gerou a fama de selvageria dos mongóis que assombraria o continente pelas décadas seguintes.

Em 1227, enquanto os generais de Gengis conquistavam territórios no sul da Rússia e na Ucrânia, o Grande Cã foi forçado a retornar para as estepes para conter uma revolta de Hsi Hsia, que havia recusado a convocação para a campanha contra Khwarizm. Após vencer os tangutes, Gengis Khan morreu acometido por uma febre alta e dores na cabeça.

Tumba Secreta

Gêngis Khan foi sepultado numa tumba secreta, em algum lugar bem no interior de sua Mongólia natal. Todas as testemunhas que por acaso viram a procissão funerária foram aprisionadas e mortas, para evitar que indicassem o local do sepultamento. Depois o corpo foi queimado com sua fortuna acumulada, os escravos que o carregaram sofreram uma emboscada e foram assassinados para esconder a localização para sempre. Sua sepultura nunca foi achada, mas localizá-la se transformou num dos maiores objetivos dos arqueólogos, capaz de tornar famoso quem o fizer.

Legado de Gengis Khan

Antes da morte de Gengis Khan, este estabeleceu seu filho, Ogedei, como seu sucessor. Ogedei encarregou-se de expandir o território mongol ao máximo, da Síria à Indochina, da Pérsia à Sibéria, da Hungria à China. Posteriormente, o grande império seria dividido em 4 partes, entre filhos e netos de Genghis, porém nenhum destes novos reinos, ou canatos, teria uma existência longa.

No início do século XIV, Timur, o Coxo, alegando ser descendente de Gengis Khan, se tornaria o Cã de um breve império mongol que abarcaria toda a Mesopotâmia, a Pérsia, o Afeganistão, o Paquistão e o norte da Índia. Ainda nesse século, os tártaros ressurgiriam, inspirados pelas conquistas de Genghis, para tomar o território do dissolvido Canato da Horda Dourada, na Rússia. Vários outros levantes mongóis de menor importância tomariam lugar nos séculos seguintes, mas o meio de vida nômade e a incapacidade de estabelecer uma indústria armamentista logo tornaria os hábeis cavaleiros montados obsoletos frente às novas artilharias dos países que ali faziam fronteiras.

Na Mongólia atual, Gengis Khan é considerado o herói máximo e o pai daquela nação, cujo culto à imagem jamais se deixou apagar, mesmo durante o regime comunista. O aeroporto da capital do país foi renomeado para Aeroporto Internacional Gengis-Khan, em homenagem ao imperador.

Orgulho da Mongólia

Escondida no fim do mundo, a Mongólia é uma região selvagem, hostil e poeirenta, que é sinônimo de remota. É onde encontramos ossos de dinossauros e nômades rudes, e nenhuma das grandes redes de fast-food. A Mongólia moderna é um pequeno país do formato de uma bola de futebol americano, que foi jogada para lá e para cá por países maiores durante centenas de anos, mas os mongóis se consolam com o conhecimento de que, em certa época produziram o mais bandido de todos da história da humanidade, Gêngis Khan. 

Na realidade, é claro que os mongóis não podem se vangloriar da indiscriminada mortandade por ele praticada. De fato, eles negam isso enfaticamente, realçando sua coragem, audácia, esplendor, esperteza, ocasionais atos de caridade, juntamente com a façanha, reconhecidamente útil, de ter unido o Oriente e o Ocidente em uma única entidade política. Eles mostram todas a úteis invenções, tais como a massa de farinha de trigo e, talvez, a pólvora, que circulam para cima e para baixo do vasto império sem precedentes. orgulhosos, eles usam a imagem de Gêngis Khan para decorar suas cédulas de dinheiro, garrafas de vodca e de cerveja, lojas, hotéis, letreiros nas ruas e barras de chocolate.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Francisco de Assis

Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis (Assis, 5 de julho de 1182 1 — 3 de outubro de 1226), foi um frade católico da Itália. Depois de uma juventude irrequieta e mundana, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos, que renovaram o Catolicismo de seu tempo. Com o hábito da pregação itinerante, quando os religiosos de seu tempo costumavam fixar-se em mosteiros, e com sua crença de que o Evangelho devia ser seguido à risca, imitando-se a vida de Cristo, desenvolveu uma profunda identificação com os problemas de seus semelhantes e com a humanidade do próprio Cristo. 

Sua atitude foi original também quando afirmou a bondade e a maravilha da Criação num tempo em que o mundo era visto como essencialmente mau, quando se dedicou aos mais pobres dos pobres, e quando amou todas as criaturas chamando-as de irmãos. Alguns estudiosos afirmam que sua visão positiva da natureza e do homem, que impregnou a imaginação de toda a sociedade de sua época, foi uma das forças primeiras que levaram à formação da filosofia da Renascença.

Dante Alighieri disse que ele foi uma "luz que brilhou sobre o mundo", e para muitos ele foi a maior figura do Cristianismo desde Jesus, mas a despeito do enorme prestígio de que ele desfruta até os dias de hoje nos círculos cristãos, que fez sua vida e mensagem serem envoltas em copioso folclore e darem origem a inumeráveis representações na arte, a pesquisa acadêmica moderna sugere que ainda há muito por elucidar quanto aos aspectos políticos de sua atuação, e que devem ser mais exploradas as conexões desses aspectos com o seu misticismo pessoal. 

Sua posição como um dos grandes santos da Cristandade se firmou enquanto ele ainda era vivo, e permanece inabalada. Foi canonizado pela Igreja Católica menos de dois anos após falecer, em 1228, e por seu apreço à natureza é mundialmente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente.

Juventude

Era filho de um comerciante italiano, cuja família tinha raízes francesas. Os pais de Francisco faziam parte da burguesia da cidade de Assis, e graças a negócios bem sucedidos na Provença, França, conquistaram riqueza e bem estar. Na ausência do pai, em viagem à França, sua mãe o batizou com o nome de Giovanni (João, em português, a partir do profeta São João Batista) na igreja construída em homenagem ao padroeiro da cidade, o mártir Rufino. 

A origem de seu nome Francesco (Francisco) é incerta. Para uns, depois de uma viagem à França, onde o menino teria ficado cativado pela vida francesa, sua música, sua poesia e seu povo, seu pai teria começado a chamá-lo de "francesco", que significa "francês" em italiano. Para outros seu pai teria feito, em vez, uma homenagem ao país natal de sua esposa, embora não haja provas de sua naturalidade francesa. Também foi sugerido que o nome foi dado por seu gosto pela língua francesa, que perdurou por toda a vida de Francisco e era em sua época a linguagem por excelência da literatura cavaleiresca e da expressão amorosa. 

O menino cresceu e se tornou um jovem popular entre seus amigos, por sua indisciplina e extravagâncias, por sua paixão pelas aventuras, pelas roupas da moda e pela bebida, e por sua liberalidade com o dinheiro, mas mostrava uma índole bondosa. Era nessa época fascinado pelas histórias de cavalaria, e desejava ganhar fama como um herói. Assim, em 1202 alistou-se como soldado na guerra que Assis desenvolvia contra Peruggia, mas foi capturado e permaneceu preso, à espera de um resgate, por cerca de um ano. Ao ser libertado caiu doente, com episódios de febre que duraram quase todo o ano de 1204. Ali se apresentaram as duas afecções que o acompanharam por toda a sua vida: problemas de visão e no aparelho digestivo.

Depois de recuperado tentou novamente a carreira das armas, engajou-se em 1205 no exército papal que lutava contra Frederico II, incentivado por um sonho que tivera. Nele apareceu-lhe alguém chamando-o pelo nome e levando-o a um rico palácio, onde vivia uma linda donzela, e que estava cheio de armas resplandecentes e outros apetrechos de guerra. Indagando de quem eram essas armas esplêndidas e o palácio magnífico, foi-lhe respondido que tudo aquilo era seu e de seus soldados. 

Um Chamado e Sua Conversão

Animado com a perspectiva de glória, pôs-se a caminho, mas no trajeto teve outro sonho, ou uma visão, onde ouviu, segundo a versão da Legenda trium sociorum, uma voz a dizer: Quem te pode ser de mais proveito? O senhor ou o servo? Como Francisco respondesse: O senhor, ouviu novamente a voz: Então por que deixas o senhor pelo servo e o príncipe pelo vassalo?. Confundido, Francisco disse: Que queres que eu faça?, e a voz replicou: Volta para tua terra, e te será dito o que haverás de fazer. Pois deves entender de outro modo a visão que tiveste.

Poucos dias depois, já em Assis, durante uma algazarra com seus amigos, teria sido tocado pela presença divina, e desde então, segundo a Legenda, começou a perder o interesse por seus antigos hábitos de vida e mostrar preocupação pelos necessitados. Eleito "rei da juventude" em um festejo folclórico tradicional, em vez de preparar-se para a entrada em uma vida de casado, como seria o costume, retirou-se, conforme relatou seu primeiro biógrafo Tomás de Celano, para uma caverna a fim de meditar, acompanhado de apenas um amigo fiel, para quem revelou suas preocupações e seu desejo de obter o tesouro da sabedoria e de desposar a vida religiosa. Mas ainda era um período de hesitação. Quando tinha arroubos de devoção e os expressava publicamente, era ridicularizado; tinha pesadelos com uma horrível mulher corcunda, e imaginava que esta era a imagem de sua futura vida de pobreza.

Certo dia saiu em um passeio pelos campos nos arredores, e ao penetrar em uma clareira ouviu o som do sino que os leprosos, proscritos pela sociedade, deviam usar para indicar a sua aproximação, e logo se viu frente a frente com o homem doente. Fazia frio e o leproso tinha apenas trapos sobre o corpo. Francisco sempre sentira repulsa dos leprosos, mas nesse momento desceu de seu cavalo e cobriu o homem com seu próprio manto. 

Espantado consigo mesmo, olhou nos olhos do outro, e viu sua gratidão, e enquanto ele mesmo chorava, beijou aquele rosto deformado pela moléstia. Este parece ter sido o ponto de virada em sua vida, mas sua vocação não se declarou toda subitamente, e a cronologia desses e outros episódios preparatórios para sua conversão não é clara nas fontes antigas. Também parece ter tentado seguir o ofício de seu pai, mas sem conseguir devotar-se a ele. Ao contrário, estava cada vez mais interessado em ajudar os pobres.

Mas certa feita entrou para orar na igreja de São Damião, fora das portas da cidade, e ali, diz a tradição, ele ouviu pela primeira vez a voz de Cristo, que lhe falou de um crucifixo. A voz chamou a sua atenção para o estado de ruína de sua Igreja, e instou para que Francisco a reconstruísse. Imediatamente voltou para sua casa, recolheu diversos tecidos caros da loja de seu pai e os vendeu a baixo preço no mercado da cidade, e voltou para a igreja onde tivera sua revelação doando o dinheiro para o padre, a fim de que ele restaurasse o prédio decadente. 

Ao saber disso o pai se enfureceu e mandou que o buscassem. Atemorizado, Francisco se escondeu em um celeiro, onde seu amigo lhe levava um pouco de comida. Passado algum tempo, decidiu revelar-se, e diante do povo de Assis se acusou de preguiçoso e desocupado. A multidão o tomou por louco e divertiu-se apedrejando-o. O pai ouviu o tumulto e o recolheu para sua casa, mas o acorrentou no porão. Alguns dias depois sua mãe, por compaixão, livrou-o das correntes, e Francisco foi buscar refúgio junto ao bispo. O pai seguiu-o e o acusou de dissipador de sua fortuna, reclamando uma compensação pelo que ele havia tirado sem licença de sua loja. Então, para a surpresa de todos, Francisco despiu todas as suas belas roupas e as colocou aos pés do pai, renunciou à sua herança, pediu a bênção do bispo e partiu, completamente nu, para iniciar uma vida de pobreza junto do povo, da qual jamais retornou. O bispo viu nesse gesto um sinal divino e se tornou seu protetor pelo resto da vida.

Igreja de São Francisco de Assis, em Assis.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eduardo III

Eduardo III (Windsor, 13 de novembro de 1312 – Londres, 21 de junho de 1377) foi o Rei da Inglaterra de 1327 até sua morte; ele é lembrado por seus sucessos militares e por restaurar a autoridade real depois do desastroso reinado de seu pai, Eduardo II. Eduardo III transformou o Reino da Inglaterra em uma das maiores potências militares da Europa. Durante seu reinado também houve grandes desenvolvimentos na legislação e no governo – particularmente na evolução do parlamento inglês – além de devastações causadas pela Peste Negra. Ele é um de cinco monarcas britânicos a terem reinado a Inglaterra ou algum de seus reinos sucessores por mais de cinquenta anos. 

Eduardo foi coroado rei aos quatorze anos de idade depois de seu pai ter sido deposto por sua mãe e Rogério Mortimer. Aos dezessete anos ele liderou um golpe contra Mortimer, o verdadeiro governante do país, começando seu reinado pessoal. Depois de uma campanha bem sucedida na Escócia, em 1337 ele declarou-se herdeiro legítimo do trono francês, iniciando aquilo que ficaria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Apesar de alguns reveses iniciais, a guerra progrediu muito bem para a Inglaterra; vitórias em Crécy e Poitiers levaram ao favorável Tratado de Brétigny. Os anos finais de Eduardo foram marcados por fracassos internacionais e lutas internas, principalmente por causa de sua inatividade e fraca saúde. 

Eduardo III era um homem temperamental, porém capaz de clemência incomum. Ele é de muitas maneiras um rei convencional cujo principal interesse era a guerra. Admirado na sua época e nos séculos seguintes, Eduardo foi chamado de um aventureiro irresponsável por historiadores posteriores como William Stubbs. Essa visão foi contestada recentemente e historiadores modernos lhe creditam com realizações importantes. 

Infância  

Eduardo nasceu em Windsor, na Inglaterra, a 13 de novembro de 1312. O reinado de seu pai ficou marcado por derrotas militares, rebeliões e corrupção da nobreza, mas o nascimento de um herdeiro masculino em 1312 permitiu manter Eduardo II no trono. Assim, no que será provavelmente uma tentativa de seu pai em restaurar a autoridade real após anos de descontentamento, Eduardo é proclamado conde de Chester com doze dias de idade, e menos de dois meses depois o seu pai fornece-lhe um conjunto de criados para a sua corte. Tem assim uma certa autonomia e pode viver como um príncipe. Tal como todos os reis de Inglaterra desde Guilherme o Conquistador, é educado na língua francesa e não conhece o inglês. 

Destituição de Eduardo II 

A 20 de janeiro de 1327, tendo Eduardo catorze anos, a rainha Isabel de França e o seu amante Rogério Mortimer destituem o rei. Eduardo III é coroado a 1 de fevereiro na abadia de Westminster, em Londres, por Walter Reynolds, arcebispo da Cantuária, com Isabel e Mortimer como regentes. Mortimer torna-se o dirigente da Inglaterra e submete constantemente o jovem rei ao desrespeito e humilhação. 

Tomada do poder 

Rogério Mortimer soube que a sua posição era precária, e mais ainda quando Eduardo e a sua esposa Filipa de Hainault tiveram um filho, a 15 de junho de 1330. Mortimer utiliza o seu poder para adquirir propriedades e títulos de nobreza tais como conde do País de Gales. A maioria desses títulos eram de Edmundo FitzAlan, nono conde de Arundel, leal a Eduardo II em sua luta frente a Isabel e Mortimer, executado a 17 de novembro de 1326. A ganância e arrogância de Mortimer levaram ao ódio dos nobres, pelo que nem tudo estava perdido para o jovem rei. A execução de Edmundo de Woodstock, irmão de Eduardo II, em março de 1330, indigna os nobres e preocupou Eduardo III que se sentiu ameaçado. 

O jovem e obstinado soberano decidiu governar sozinho e procurou escapar ao mesmo destino que o seu pai e seu tio, e procurou vingar-se das humilhações sofridas. Perto dos 18 anos, Eduardo estava pronto. A 19 de outubro de 1330, Mortimer e Isabel dormiam no castelo de Nottingham. Um grupo fiel a Eduardo entrou na fortaleza por uma passagem secreta e surgiu no quarto de Mortimer. Mortimer foi preso em nome do rei e levado para a torre de Londres. Despojado de suas terras e títulos, foi acusado de usurpar a autoridade real em Inglaterra. A mãe de Eduardo - grávida do filho de Mortimer - suplicou misericórdia ao filho, mas em vão. Sem processo, Eduardo condenou Mortimer a morte. Este foi enforcado a 29 de novembro de 1330. Isabel foi exilada para o castelo de Rising (Norfolk) onde é provável que tenha abortado. Aos 18 anos, a vingança de Eduardo terminou e ele tomou o poder em Inglaterra. 

Reinado 

Em 24 de janeiro de 1328, se casou com Filipa de Hainault, com quem teve uma ampla descendência. Ao contrário de seu pai, Eduardo III tinha uma personalidade forte, revelada logo que atingiu a maioridade. 

Eduardo III dedicou o início da década de 1330 para restaurar o domínio sobre a Escócia, que aproveitara a confusão na política inglesa durante o reinado de Eduardo II e dos anos que se seguiram, para readquirir sua independência. Com a conquista da vitória assegurada na batalha de Halidon Hill, em 1333, Eduardo III voltou-se para outro conflito marcante durante a Idade Média. 

Em 1328, Carlos IV de França, o último dos três filhos de Filipe IV, morreu sem deixar um descendente do sexo masculino. Como na França vigorava a lei sálica, a Coroa passou para Filipe de Valois, um primo distante, que foi coroado como Filipe VI de França. Eduardo III era sobrinho do falecido Carlos IV, pelo lado materno, e considerou a sua pretensão mais razoável que a do Conde de Valois, apesar de a lei sálica tecnicamente o excluir da sucessão. Os franceses não aceitaram essa hipótese que resultaria numa perda de independência e confirmaram Filipe VI como rei. Depois de alguns conflitos diplomáticos, Eduardo III declarou hostilidade aberta à França, iniciando assim a famosa Guerra dos Cem Anos. 

O início das hostilidades foi marcado pelos sucessos da batalha de Crecy (1346) e da batalha de Poitiers (1356), e pela conquista de grande parte do Norte de França. Apesar disso, Eduardo III não fez nenhuma tentativa para ir mais longe e conquistar Paris, por exemplo. Entregado o controle da frente francesa ao filho Eduardo, o Príncipe Negro, que já se mostrava um notável líder militar, Eduardo III se concentrou na guerra com a Escócia. O resultado da campanha do Príncipe Negro foi excelente: a Inglaterra venceu a França na Batalha de Poitiers e Eduardo III teve a honra de ver o rei João II de França como seu prisioneiro. As condições de resgate detalhadas no Tratado de Brétigny garantiam o pagamento de 3.000.000 de coroas para o seu reino e cerca de um terço do território francês. 

Apesar de se respeitarem mutuamente, Eduardo III e o seu primogénito não tinham uma relação muito harmoniosa nem partilhavam a mesma visão de como deveria ser a política interna. O casamento do príncipe de Gales com Joana de Kent tinha sido motivo de grande ressentimento para Eduardo III. No entanto, quando Eduardo de Gales morreu, em 1376, Eduardo III chorou a sua morte e se tornou melancólico. Morreu no ano seguinte, sendo sucedido pelo neto Ricardo. 

Depois da morte de Eduardo III, a sucessão do trono inglês parecia assegurada, seja por Ricardo, ainda muito jovem, seja pelo grande número de filhos que Eduardo gerou. Porém, os conflitos que em breve ocorreriam, entre os diversos ramos da sua descendência, deram origem à Guerra das Rosas, onde os seus netos, divididos entre as casas de York e Lencastre, disputaram a coroa numa sangrenta guerra civil. Durante seu reinado, foi estabelecida a Ordem da Jarreteira. Ele está enterrado na Abadia de Westminster.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eduardo, o Príncipe Negro

Eduardo de Woodstock, Príncipe de Gales (Woodstock Palace, 15 de Junho de 1330 — 8 de Junho de 1376), conhecido na história como o Príncipe Negro, foi o filho mais velho e herdeiro do rei Eduardo III de Inglaterra. Eduardo tornou-se Duque da Cornualha em 1337, Príncipe de Gales em 1343 e da Aquitânia em 1362.

Desde cedo provou ser dotado para a guerra, mostrando a sua coragem com apenas 16 anos, na Batalha de Crécy, onde liderou um dos corpos de infantaria que resistiram à carga da cavalaria pesada francesa. Mais tarde, usando as inovações militares que desequilibraram a Guerra dos Cem Anos a favor de Inglaterra, como a utilização dos arqueiros ingleses e galeses armados de arcos longos de madeira de teixo, Eduardo manteve seguras as posições conquistadas em França, enquanto o seu pai se encarregava da frente escocesa. Após o sucesso da batalha de Poitiers, Eduardo regressa a Inglaterra.

A relação com o pai foi de confiança e respeito mútuos até 1361, data do casamento de Eduardo com Joana de Kent, sua prima direita e viúva. Esta união de amor, totalmente despropositada para a época, contrariou os planos diplomáticos de Eduardo III. Eduardo foi então nomeado Duque da Aquitânia e enviado para o continente para governar esta província. Durante a sua estadia, envolveu-se nos conflitos internos de Castela que acabaram por o arruinar financeiramente. O regresso a Inglaterra esteve longe de ser glorioso. Com a saúde e as finanças num estado débil, nunca mais se envolveu em campanhas militares. Eduardo morreu em junho de 1376 (um ano antes do seu pai) e encontra-se sepultado na Catedral da Cantuária.

domingo, 21 de outubro de 2012

Carlos VI, o Louco

Carlos VI de Valois, dito o Louco ou o Bem Amado (3 de dezembro de 1368 — 21 de outubro de 1422) foi Rei de França e chefe da Casa de Valois entre 1380 e a sua morte. A sua rainha consorte foi Isabel da Baviera com quem casou em 1385.

Primeiros anos 

Carlos nasceu em Paris, primogênito de Carlos V apelidado o Sábio, e de Joana de Bourbon. Como herdeiro da coroa ao nascer, recebeu o título de Delfim de França em 1368. Jean Froissart o descreveu nas suas crónicas como sendo criança alegre, activa e fascinada pelos grandes feitos militares.

Os quatro tios, duques de Anjou, de Berry, da Borgonha e de Bourbon, guardaram o poder até 1388; apenas o duque de Borgonha tinha algum interesse pelo bem público. Em 1380 Carlos subira ao trono por morte do pai, mas como tinha 12 anos a regência ficou entregue a um conselho chefiado pelos seus tios João de Berry, Filipe da Borgonha e Luís de Anjou.

Durante sua menoridade, o país foi assim governado em função dos interesses dos tios, que guerreavam frequentemente entre si sem ter em conta o interesse da França. Aos 20 anos, conseguiu se livrar da influência dos regentes, com a ajuda do Condestável Olivier de Clisson inimigo político dos Duques de Berry e da Borgonha. Ao mesmo tempo, cresceu o ascendente do seu irmão mais novo Luís I de Valois, que Carlos fez Duque de Orleães em 1392.

A loucura

Em 1392 uma misteriosa doença fez cair seu cabelo e unhas. E o episódio da travessia da floresta du Mans marca o início da sua loucura: Ainda febril e ligeiramente delirante, carlos VI saiu cavalgando com seu séquito. Um ruído súbito o espantou, fazendo com que ele sacasse a espada e começasse a ferir todo mundo que via. Matou quatro escudeiros antes de ser contido. No ano seguinte o acidente do bal des Ardents confirmou a doença.

Apesar de nunca ter sido particularmente astuto para a governação, fruto de sua educação desleixada, manteve uma personalidade estável até 1392, ano em que Olivier de Clisson sofreu uma tentativa de assassinato orquestrada pelo Duque João V da Bretanha.

Para defender a honra do Condestável, Carlos organizou uma expedição punitiva contra a Bretanha, mas a meio do caminho sofreu um ataque de demência psicótica, o primeiro sinal do distúrbio bipolar que o afectou até ao fim da vida. Carlos recuperou sua sanidade, mas por pouco tempo. A partir de então, as crises sucederam-se com intervalos de lucidez curtos e espaçados.

Seus ataques de comportamento estranho iam e vinha, mas tornaram-se progressivamente mais longos e piores, conforme o rei envelhecia. Ele alternava entre um estado de estupor, quando ficava inerme, e uma alegria frenética. Certa vez ele, acidentalmente, tocou fogo em si mesmo e em diversos amigos enquanto desempenhava o papel de homem selvagem, desgrenhado, num baile de máscaras, e sua vida foi salva pela iniciativa rápida de uma duquesa, que apagou o fogo debaixo da própria saia. Nos seus dias ruins, ele urinava nas roupas, quebrava a mobília e permitia que seus filhos andassem andrajosos, por pura negligência. Durante algum tempo, ele acreditou quer era feito de vidro e que quebraria se o sacudissem.

Carlos era louco demais para liderar a França na guerra, de modo que reinou a paz. Em vez disso, os membros da família real passaram as décadas seguintes matando-se uns aos outros, no meio de intrigas da corte, os diversos parentes do rei brigando para ver quem realmente mandava. Embora estivesse a princípio muito apaixonada por Carlos, e continuasse tentando ter um herdeiro com ele a despeito de seu perigoso comportamento, Isabela, a rainha francesa nascida na Alemanha, por fim iniciou um caso com o irmão do rei, o duque de Orleans. O romance continuou até que agentes do tio do rei, Filipe, o Orgulhoso, duque da Borgonha, abateram o irmão do rei nas ruas de Paris.

Quando se considerou que enlouquecera, Luís I de Valois assumiu a regência de facto, mas foi assassinado em 1407. João Sem Medo, inimigo desde 1404, tentou-se apoderar de sua pessoa, dominando o conselho do rei de 1408 a 1411, sinal da guerra civil dos Armagnacs contra os borgonheses.

Azincourt

Os últimos anos do reinado de Carlos VI foram marcados pela segunda fase da Guerra dos Cem Anos e pela invasão de França comandada por Henrique V de Inglaterra, que culminou no desastre da batalha de Azincourt. 1415 foi um ano ruim para a França:Henrique V derrotou os franceses, dizimando a nobreza francesa. As tropas inglesas ocuparam o norte do país.

Henrique V de Lancaster aproveita a loucura do rei e as querelas entre os membros do conselho da Regência, entre Armagnacs e Borgonheses, e denuncia a trégua assinada em 1396. Desembarca em 13 de agosto de 1415 perto de Harfleur com 1.400 navios e um total de 30.000 homens. Os cavaleiros franceses, agrupados ao redor da facção dos Armagnacs, vão a seu encontro para lhe cortar a estrada de Calais. Apesar da vantagem numérica (50.000 combatentes contra 15.000), os franceses sucumbem, indisciplinados. Pretendem atacar a cavalo as linhas inimigas detrás das quais estão os arqueiros ingleses. Os cavaleiros atacam os arqueiros, pesados em armaduras que pesavam 20 quilos, sem poder se deslocar direito num solo molhado pelas chuvas. No pânico, diante das flechas às centenas, muitos cavaleiros caem dos cavalos e são aprisionados. A maior parte dos prisioneiros (uns 1700) são degolados pelos arqueiros por ordem do rei inglês, que deseja exterminar a facção dos Armagnacs para reforçar seus aliados borgonheses. Os ingleses não os querem vivos, para trocar por resgate como era costume feudal. As perdas são enormes, do lado francês morrem 10 mil homens, contra 1.500 do lado inglês. Azincourt é uma das batalhas mais mortíferas da Idade Média.

Em Paris, há enorme descontentamento contra a gente de Bernardo VII que faz reinar o terror como antes o tinham feito os Borguinhões. Em 29 de maio de 1418, violento motim expulsa os Armagnacs, milhares são massacrados, o próprio conde é cortado em pedaços. O Delfim Carlos acha meios de fugir, graças ao preboste (antigo nome do comandante militar) da capital.

Com o título de regente, continuará a luta contra os ingleses à testa do que resta do partido armagnac. Paris, sem remédio, se submete de novo aos Borgonheses. Triunfam João Sem Medo e seus aliados ingleses. O duque manobra o pobre rei de França, Carlos VI, e sua mulher Isabeau. Ao mesmo tempo, inquieto com a pressão dos ingleses, o duque tenta se reconciliar com o delfim Carlos. O encontro se transforma em drama pois João Sem Medo é assassinado diante dos próprios olhos do Delfim em Montereau em 10 de setembro de 1419. O novo duque da Borgonha, Filipe o Bom, querendo vingar-se, não hesita mais em se aliar aos ingleses.

O infame Tratado de Troyes

Carlos já praticamente não tinha contacto com a realidade e estava confinado aos seus aposentos, o que deixou o país entregue às lutas entre João da Borgonha e o Conde Bernardo de Armagnac. O poderoso duque da Borgonha, João Sem Medo, e o herdeiro do trono, o delfim Carlos, se encontraram em 10 de setembro de 1419 sobre uma ponte que atravessa o rio Yonne, em Montereau. Ambos desejavam vencer os ingleses, que dominavam a França depois de sua vitória em Azincourt e já tinham ocupado o ducado da Normandia. João era o chefe do Partido borgonhês. O delfim, chefe do partido armagnac. Depois de sangrentas escaramuças, armagnacs e borguinhões pareciam dispostos a dar fim a sua rivalidade que ameaçava arruinar a monarquia dos Valois, em benefício do rei Henrique V da Inglaterra. Em 19 de setembro um Te Deum em Paris celebra sua reconciliação. Mas os companheiros do delfim guardam rancor pelo duque, pelo assassinato de Luís I de Valois, duque de Orleães, doze anos antes. Um deles ataca João Sem Medo com um machado, na própria presença do delfim. O assassinato reaviva a querela entre os Armagnacs e os Borguinhões, prejudicando a França, e permitindo aos ingleses negociar o infame tratado de Troyes com Isabeau da Baviera e seu marido, o infeliz rei louco. Em 1420 Carlos foi trazido a público para assinar o Tratado de Troyes que deserdava o Delfim Carlos, seu filho putativo, a favor de Henrique V. Morreu dois anos depois e foi sucedido por Carlos VII apenas dada a intervenção de Joana de Arc.

Pelo Tratado de Troyes acertou-se o casamento de Henrique V com Catarina de Valois, filha de Carlos VI e Isabel, e a subida do casal ao trono por morte de Carlos VI, sem contar com o Delfim Carlos. Antes, desde junho de 1419, o delfim escapara de Paris para Bourges, onde convocou a ajuda dos escoceses. Chegaram soldados da Escócia sob o comando do duque de Albany, do Earl ofDouglas e Sir John Stuart, lord de Darnley. Por cinco anos, forneceram ao delfim o apoio indispensável a que assumisse o trono comoCarlos VII, e resistisse aos ingleses.

Morto Carlos VI em 1422, a viúva Isabel (famosa pela ligeireza de costumes) não hesitou em colocar em dúvida a legitimidade do próprio filho, e reconheceu como rei da França o rei da Inglaterra Henrique V, com o qual tinha casado sua filha Catarina. A França passou a ter dois reis legítimos. O jovem Henrique VI deduzia sua legitimidade do Tratado de Troyes; reinava sobre Paris e o norte da França, fazendo-se representar por seu tio, João de Lancaster, duque de Bedford. Tem o apoio da Igreja, da Universidade e do povo de Paris, e é aliado ao poderoso partido borgonhês. Quanto a Carlos VII de Valois, apelidado o pequeno rei de Bourges, reina apenas sobre o centro e o sul, terra d´oc. Não tem dinheiro, nem apoio, além de alguns armagnacs e mercenários de toda sorte, seus cortesões se querelam - está a beira de renúncia, ao encontrar Joana d´Arc em 1429.

A guerra entre os ingleses e Carlos VII terminará apenas pela batalha de Castillon, perto de Bordeaux, em 17 de julho de 1453. A querela terá por final a luta entre Luís XI, filho de Carlos VII, e Carlos o Temerário, duque da Borgonha, filho de Filipe o Bom. A morte do duque em 1477 e a anexação do ducado da Borgonha ao reino de França serão o epílogo.

sábado, 20 de outubro de 2012

Henrique V

Henrique V (1386 - 31 de Agosto de 1422), foi rei de Inglaterra entre 1413 e 1422. Fez parte da dinastia de Lencastre e era filho do rei Henrique IV e Maria de Bohun.

Henrique de Monmouth (assim conhecido por ter nascido no castelo de Gales com o mesmo nome) foi criado longe da corte, uma vez que não era descendente de um pretendente à coroa. Em 1399, o seu pai revoltou-se contra o primo Ricardo II de Inglaterra, acabando por depô-lo e subir ao trono. Esta mudança conferiu um novo estatuto a Henrique, agora herdeiro da coroa e como tal Duque da Cornualha e Príncipe de Gales. Estes títulos não eram só nominais. Henrique encarregou-se desde muito cedo da administração de Gales e em 1403, com apenas 16 anos, liderou os ingleses na batalha de Shrewsbury, que pôs fim à revolta organizada por Henry Percy. Apesar de seriamente ferido em batalha, Henrique sobreviveu e continuou no terreno, lutando até 1408 contra Owain Glyndwr, outro rebelde galês. A partir de 1410, Henrique assumiu o controle da administração, devido ao estado de saúde do pai, cada vez mais débil.

Finalmente em 20 de Março de 1413, Henrique de Monmouth sucede a seu pai como Henrique V. As suas primeiras medidas foram no sentido de pacificar os conflitos internos derivados da violenta subida ao poder do seu pai. Foram emitidas amnistias e reinstituídos como herdeiros os filhos de homens que se opuseram a Henrique IV e morreram por isso. Livre de pressões internas, Henrique dedicou-se à política externa, nomeadamente à sua pretensão à coroa de França e à resolução da guerra dos cem anos que durava já desde 1337. A campanha de 1415 foi marcada pelo sucesso da batalha de Azincourt (25 de Outubro), onde as suas reduzidas tropas derrotaram o grosso do exército francês e dos seus aliados. Em 1417, Henrique renova as hostilidades e conquista a Normandia, enquanto os franceses se encontravam divididos pelas disputas entre Armagnacs e borgonheses. Ruão cai em Janeiro de 1419 e em agosto Henrique acampa com o seu exército sob as muralhas de Paris. Em Setembro João o Temerário, Duque da Borgonha é assassinado e a capital perde qualquer esperança de salvamento. Depois de seis longos meses de negociações, Henrique é declarado herdeiro e regente de França pelo tratado de Troyes e casa com a princesa Catarina de Valois a 2 de Junho de 1420.

Tudo parecia apontar para a união pessoal com a França e Henrique retirou-se, no auge do seu poder, para Inglaterra. A visita a casa durou pouco tempo. Em 1421, o seu irmão Tomás, Duque de Clarence, morreu na batalha de Baugé e obrigou Henrique a regressar ao teatro de operações. O Inverno passado em campanha, no cerco de Meaux, enfraqueceu-lhe a saúde e o rei acabou por morrer de disenteria em Agosto de 1422. O corpo foi transladado para Londres e encontra-se sepultado na Abadia de Westminster.

Henrique V foi sucedido pelo filho homónimo, então um bebé de oito meses, longe de representar o líder forte que se desejava para manter os princípios do tratado de Troyes. Assim, quando Carlos VI de França morreu poucos meses depois, o seu filho ficou à vontade para ignorar os acordos e, apesar de deserdado, reclamar a coroa francesa. Só em 1801 os reis ingleses abdicaram dessa pretensão.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tamerlão

Tamerlão, o Coxo (8 de abril de 1336 – 18 de fevereiro de 1405), foi o último dos grandes conquistadores nômades da Ásia Central de origem turco-mongol.

Nascido nos domínios do Canato Chagatai, de uma família de pastores, agregou em torno de si diversas tribos, graças à sua competência como guerreiro, à sua astúcia como político e ao seu carisma como entusiasta da religião e das artes. Com a ajuda de um vasto exército, construiu um poderoso e agressivo império, conhecido como Império Timúrida, que não resistiria à sua morte.

Ascensão

Tamerlão (Timur) começou sua carreira como um bandido pouco importante. Quando jovem, foi ferido por flechas na mão direita e no joelho, enquanto participava de gloriosas batalhas, ou roubando carneiros, a versão de seus inimigos, deixando-o manco e com um braço semi paralisado pelo resto da vida. Sua família havia se agregado ao recém formado Canato Chagatai, um dos quatro reinos mongóis originários da fragmentação do grande império de Genghis Khan. A unidade política desse reino era praticamente inexistente, e os clãs viviam de maneira quase independente, como pastores nômades ou semi-nômades. Tamerlão nasceu e cresceu nesse contexto, onde a liderança não era herdada, mas conquistada e mantida pela força e pela coragem. É possível que o respeito que conquistou esteja ligado à sua personalidade carismática e ao seu gênio militar. Arabshah, um historiador de Damasco, observa que a lealdade conquistada por Timur seria devida ao seu sucesso como ladrão de ovelhas, e que seus seguidores seriam ladrões, depois transformados em guerreiros hábeis e disciplinados.

No decorrer da década de 1360 Timur estabeleceu alianças entre líderes tribais, tornando-se virtualmente o líder de todo o Canato Chagatai. Para confirmar sua autoridade, Timur forjou uma relação distante de parentesco com Genghis Khan, e assumiu para si o título de Khan.

Personalidade

Tamerlão foi descrito por diversos cronistas do século XIV, e cada relato apresentava o imperador sob um enfoque diferente: ora nobre e educado, ora violento e explosivo, ora um bárbaro aculturado, ora um amante das artes. Mas todos os relatos concordam que Timur possuía personalidade complexa que fascinava e tornava perplexos mesmo os seus desafetos.

Era adepto de uma versão do Islão que incorporava os velhos cultos animistas mongóis e tomou para si a missão de expandir e fortalecer a fé islâmica no mundo, assumindo também o papel de um líder religioso para seu povo. Além disso, sabia que os chagatai precisavam ser mantidos ocupados, para evitar descontentamentos entre seus exércitos, e empreendeu contínuas campanhas militares contra seus vizinhos durante seu reinado. Assim, seu poder se consolidou, também, por saber como lidar com seus inquietos compatriotas, além de expandir seu império para além das estepes da Ásia Central

Apesar da natureza rude do modo de vida mongol, o imperador chagatai era um entusiasta de história, arte, arquitetura, poesia e filosofia, e não raro fazia questão de poupar artistas, historiadores e engenheiros estrangeiros durante suas conquistas - exterminando todo o resto da população. Timur também apreciava a visita de embaixadores e mercadores estrangeiros, com os quais aprendia sobre a história e a cultura de povos tão distantes quanto os espanhóis e italianos. Durante seu reinado, a cidade de Samarcanda, para onde esses prisioneiros eram deportados, tornou-se a pérola das estepes asiáticas, com grandes obras de arquitetura e urbanismo.

A característica pela qual Tamerlão tornou-se mais conhecido - e temido - em todo o ocidente foi sua crueldade, a brutalidade com que tratava os povos conquistados. Apesar de ser um líder militar refinado (estabelecia novas estratégias jogando xadrez), não abria mão da violência para abater a moral dos inimigos e impor respeito sobre os povos conquistados. Atos como o assassínio de um grupo de crianças pequenas - ocorrido no ataque a Isfahan, quando dizimou quase toda a população local, empilhando seus crânios em montes do lado de fora da cidade - e o emparedamento de duas mil pessoas em uma torre de Isfizar para sufocar uma rebelião, tiveram enorme repercussão negativa na reputação de Tamerlão na Europa e em reinos adjacentes, mas inflava o orgulho dos chagatai.

Conquistas

Tamerlão unificou os chagatai em torno de si usando astúcia política, mas fez uso de seus arqueiros montados em pequenos cavalos mongóis para vencer exércitos e conquistar cidades na Ásia. Inicialmente, Timur era senhor da Transoxiana e parte do Turquestão, e começou a expandir seus domínios para o Coração, o Afeganistão e Multão, no Paquistão. Conquistou a velha cidade de Deli, a Pérsia, o Iraque, a Armênia e o sul da Rússia, então sob domínio do Canato da Horda Dourada. 

Quando uma guarnição cristã de Sivas, na Armênia, perguntou quais seriam os termos para uma rendição, Tamerlão jurou que não derramaria uma gota de sangue. Depois que o inimigo se rendeu, ele cumpriu o prometido e, em vez disso, enterrou-os vivos.

Seu exército ainda saquearia o reino da Geórgia várias vezes. Na conquista de Deli, Timur teve que enfrentar pela primeira vez um exército montado sobre elefantes. Sem saber como enfrentar essa força desconhecida para os mongóis, ordenou que apanhassem os camelos que os escoltavam e carregaram-nos com fardos de palha. Atearam fogo aos fardos e enviaram os camelos em disparada para as linhas inimigas, causando pânico aos elefantes, forçando sua retirada.

Estratégias

Para seus admiradores, Tamerlão era um tipo de guerreiro astucioso. Como um jovem bandido do interior selvagem da Ásia Central, ele fazia seus soldados erguerem fogueiras desnecessárias em um círculo em torno do inimigo para convencê-lo de que estavam inferiorizados em efetivo. Fazia com que seus cavaleiros arrastassem ramos de árvores para levantar uma nuvem de poeira maior.  

Campanhas: sudoeste (1381-84)

Gerações após Gêngis Khan ter destruído Herat, em 1221, a cidade renascera, tornando-se uma parada rica e culta da Estrada da Seda. Durante os primeiros dias como mercenário itinerante, Tamerlão trabalhou para a dinastia que governava aquela cidade, e então tentou negociar uma aliança marital. O governante na época concordou a princípio, mas ficou argumentando sobre os detalhes. Então os espiões de Tamerlão descobriram que Herat estava reforçando suas defesas, um evidente ato provocativo. Tamerlão atravessou velozmente 480 quilômetros de um deserto e montanhas inóspitas, para pôr cerco à cidade. Sabendo o destino que esperava uma defesa malsucedida, Herat desistiu de lutar e conseguiu misericórdia.

Com seu exército mobilizado e tendo viajado tanto para o oeste, Tamerlão continuou sua ofensiva. Na partilha por quatro, a parte persa do império de Gêngis Khan ficara sendo o domínio dos Il-Khans, maso khanato desmoronou mais ou menos na mesma época do ocaso da dinastia Chagatai. Explorando o vácuo do poder, Tamerlão invadiu a Pérsia com o que viria a ser sua característica crueldade.

Na Cidade de Isfizar, ele trancou 2 mil prisioneiros em uma torre, deixando-os morrer de fome. Zaranj, cidade próxima, suscitava más lembranças para Tamerlão, pois fora lá que ele recebera seus ferimentos debilitantes, de modo que, embora tenham se rendido sem qualquer luta, os habitantes foram massacrados e sua cidade, incendiada.

Sudoeste (1386-88)

Durante algum tempo, Tamerlão voltou para casa a fim de descansar, antes de invadir a Pérsia de novo. Depois de conquistar a cidade de Isfahan, no Irã central, ele instalou uma guarnição lá e estava pronto para conceder misericórdia, mas a população se sublevou e atou a guarnição. Tamerlão avançou sobre a cidade de novo e liquidou com seus habitantes, plantando em estacas as cabeças, como um aviso para outros, que podiam querer resistir a sua força. A cidade próxima de Shiraz entendeu a mensagem e rendeu-se imediatamente. Um historiador muçulmano explorando Isfahan logo depois contou 28 torres de 1.500 cabeças cada, antes de interromper o circuito que fazia em torno das ruínas. O provável total estava perto de 70 mil.

Embora pensemos no passado como uma época mais brutal do que a de hoje, vale a pena notar que, entretanto, muitos dos soldados de Tamerlão ficavam horrorizados com a ordem de massacrar civis e outros muçulmanos. Tamerlão exigia de cada unidade certo número de cabeças, ou então que sofressem as consequências. Os oficiais eram designados para conferir a contagem. Os soldados de ânimo mais fraco compravam sua quota dos companheiros com menos escrúpulos. A princípio, o preço de uma cabeça era 20 dinares, mas conforme o massacre prosseguia e o suprimento subia para cumprir a demanda, o preço caiu para meio dinar. 

Noroeste (1390-91)

Uma dinastia mongol, que se intitulava a Horda Dourada, herdara o quarto europeu do império de Gêngis Khan, a oeste dos montes Urais, estendendo-se pelas estepes da Rússia e da Ucrânia. Tinha havido uma disputa dinástica na década de 1370, e durante algum tempo Tamerlão deixou que Toktamish, o pretendente marginal da liderança, dormisse em seu sofá, falando metaforicamente, até que pudesse arranjar um cargo para ele. Tamerlão ajudou-o a conquistar o trono da Horda Dourada, mas então os dois herdeiros de Gêngis Khan se desentenderam. Logo depois que Tamerlão se retirara da sua primeira incursão na Pérsia, Toktamish se esgueirou atrás dele e tomou Tabriz, uma cidade que Tamerlão reservara para conquistar mais tarde.

Era evidente que a Eurásia não era bastante grande para a ambição dos dois. Tamerlão partiu para o norte, entrando na imensidão desconhecida da Sibéria, e depois virou para a esquerda e, atravessando as vastas florestas da Rússia, surpreendeu o inimigo. Em junho de 1391, o exército de Tamerlão - 100 mil homens e mulheres - caiu avassaladoramente sobre a Horda Dourada, na Batalha de Kunduzcha. Depois de feroz luta, Toktamish fugiu, com as tropas de Tamerlão perseguiu-o de perto. Embora Toktamish conseguisse fugir, suas principais cidades, Sarai e Astrakhan, foram conquistadas e saqueadas.

Sudoeste (1393)

Pérsia, novamente.

Noroeste (1395)

Toktamish, novamente.

Sudeste (1398-99)

No verão de 1398, Tamerlão partiu para punir seu companheiro muçulmano, o sultão de Déli, por tolerar todas as culturas e permitir a livre circulação dos hindus, o que Tamerlão considerava uma afronta ao Islã. Em dezembro, ele já cruzara todas as montanhas, desertos e rios  que separavam a Índia do restante do mundo, e conduziu seu exército para o sul, pela planície do Punjab. Enquanto atravessava o país, ele foi acumulando milhares de prisioneiros hindus, que levaria de volta como escravos.

O exército de Tamerlão sobrepujou as forças do sultão à vista das muralhas de Déli, derrotando os elefantes de guerra com a tática dos camelos flamejantes, descrita anteriormente. Durante a batalha, Tamerlão ouviu seus prisioneiros ovacionarem os ataques indianos, de modo que mandou matá-los, 100 mil deles, de acordo com as crônicas. Originalmente ele planejava poupar a cidade, mas, quando seus soldados saqueavam e praticavam estupros ao atravessar a cidade, surgiram altercações e lutas com os habitantes. A coisa evoluiu para uma verdadeira rebelião contra os invasores, que Tamerlão sufocou com sua típica crueldade. Cerca de 50 mil pessoas foram massacradas, e suas cabeças fincadas em estacas fora dos quatro cantos da cidade. Depois ele confiscou todo o tesouro que a grande capital acumulara ao longo dos anos, juntamente com dezenas de milhares de novos escravos.

Oeste (1400-1404)

Em outubro de 1400, Tamerlão avançou para o oeste. tendo reduzido a Pérsia de um grande império a um mero atalho, ele atravessou o país e atacou além dele. No caminho, conquistou todas as grandes cidades, e enterrou viva a guarnição de Sivas. Destruiu Alepo e empilhou 20 mil cabeças. Depois saqueou e incendiou Damasco e eliminou sua população, em março de 1401.

Uma pequena força enviada para se apoderar de Bagdá não tivera êxito, de modo que Tamerlão voltou com todo o seu exército e sitiou a cidade por seis semanas. Num dia insuportavelmente quente, quando os defensores se refugiaram na sombra, Tamerlão atacou. Depois que a cidade foi conquistada, ele ordenou que cada um de seus guerreiros lhe trouxesse uma cabeça cortada; algumas fontes dizem duas. Apenas os clérigos e os estudiosos foram poupados do massacre. Quando ficou patente que havia menos habitantes em Bagdá do que a cota estabelecida por Tamerlão, foram trazidas cabeças do próprio acampamento mongol: seguidores, prostitutas e escravos pessoais, porque ninguém ousava desafiar um comando de Tamerlão. Os mongóis demoliram todas as construções seculares e cercaram as ruínas com 120 torres, erigidas com 90 mil cabeças ao todo, enquanto Tamerlão fazia uma peregrinação a um santuário próximo, para rezar.

A invasão para oeste colocou Tamerlão em conflito com os turcos otomanos, que estavam ocupados, eliminando os últimos vestígios do Império Bizantino. O sultão turco, Bayezid, o Trovão, esmagara uma fieira de inimigos, tanto na Europa quanto na Ásia, e tudo que precisava para coroar sua carreira e ser aclamado como o maior guerreiro da história do Islã era conquistar Constantinopla, sede do império, saída para o mar Negro, e o portão para a Europa, e que resistira por séculos aos invasores muçulmanos.

Então, em 1402, as hordas de Tamerlão surgiram avassaladoramente do leste, e Bayezid precisou abandonar seu sítio de Constantinopla para barrar o avanço dos mongóis. Bayezid partiu com um grande exército calejado nas batalhas e enfrentou Tamerlão em Ancara. Foi uma luta dura, e diversas unidades turcas, constituídas de constritos descontentes, passaram para o lado inimigo, trazendo o caos à posição otomana. Bayezid foi derrotado e capturado, juntamente com seu séquito. Tamerlão tinha, sem querer, salvado a Europa dos turcos por meio séculos mais.

Contam-se muitas histórias da humilhação sofrida pelo ex-sultão nas mãos do comandante mongol. Dizem que Bayezid foi mantido numa gaiola, em público, que sua esposa foi forçada, nua, a servir refeições a membros da corte, que Tamerlão o usava como banquinho para descansar os pés. Provavelmente essas histórias não são verdadeiras, porque não apareceram nos registros históricos senão muito mais tarde. Os primeiros historiadores disponíveis alegaram que Bayezid foi bem tratado.

Chegando ao litoral mais a oeste da Anatólia, na península da Turquia, Tamerlão montou cerco à Ordem dos Cavaleiros de Rodes, na cidade cristã de Esmirna, que aguentou o sítio por umas poucas semanas, e depois suportou o costumeiro massacre e pilhagem. Mais tarde, quando a frota cristã chegou para ajudar os cavaleiros a romper o cerco, Tamerlão escarneceu deles e mostrou que haviam chegado tarde demais catapultando as cabeças dos ex-defensores para cima dos navios.

Amir Tamerlão

Tamerlão tinha grande respeito pelos estudiosos e atraiu muitos deles para sua corte. Encomendou magníficas edições do Corão aos melhores calígrafos. Era também um mestre no xadrez, e a versão mais complicada do jogo ainda leva seu nome. No xadrez de Tamerlão, o tabuleiro tem duas vezes mais casas do que o xadrez regular e mais peças, tais como elefantes, que pulam duas casas, em diagonal, e girafas, que se movem uma em diagonal e três em linha reta. 

Fim de Jogo

Já então com 71 anos, Tamerlão esmagara os dois impérios mais poderosos da Ásia: Déli e os otomanos. Realizara conquistas em todas as direções, com exceção do leste, penetrando na China. Recentemente a dinastia Ming, liderada por Zhu Yuanzhang, expulsara os mongóis de seu país, e Tamerlão decidiu que isso não podia continuar. Com um novo exército, ele partiu para restaurar o império de Gêngis Khan, mas a velhice o alquebrou e ele morreu em 1405, antes de seu exército cruzar a fronteira. 

O significado das conquistas de Tamerlão, embora tenham sido enormes, sangrentas e pitorescas, é pequeno e cheio de ironias. Ele era um muçulmano devoto, que destruiu quase exclusivamente inimigos muçulmanos, e foram os derrotados nas suas guerras que deixaram legados verdadeiros, enquanto Samarcanda se tornou uma cidde estagnada, deserta, sob o governo de khans cujo nomes foram esquecidos. 

Exumação

O corpo de Tarmelão foi exumado de seu túmulo em 1941 pelo antropólogo soviético Mikhail Gerasimov. De seus ossos, ficou claro que Tamerlão era um homem alto e de peito largo com ossos fortes no rosto. Gerasimov também descobriu que as características faciais de Tamerlão conformavam-se a parciais características da raça amarela, que ele acreditava, em parte, apoiar a noção de Tamerlão de que ele era descendente de Genghis Khan. Gerasimov foi capaz de reconstruir a imagem de Tamerlão a partir de seu crânio. Sua altura era de 1,73 metros, alto para sua época. Também confirmou a claudicação, devido a uma lesão no quadril de Tamerlão.

O túmulo de Tamerlão é protegido por uma laje de jade, na qual estão esculpidas as palavras em árabe: "Quando eu ascender dos mortos, o mundo vai tremer". Diz-se que quando Gerasimov exumou o corpo, uma inscrição adicional dentro do caixão foi encontrada, lendo-se "Quem abrir o meu túmulo soltará um invasor mais terrível do que eu". Em qualquer caso, dois dias depois de Gerasimov começar a exumação, a Alemanha nazista lançou a Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética. Tamerlão foi re-enterrado com ritual islâmico completo em novembro de 1942, pouco antes da vitória soviética na Batalha de Stalingrado.

O legado de Tamerlão

O império de Tamerlão sucumbiu logo após seu criador. Dividido entre os filhos de Timur, as velhas rivalidades tribais voltaram a surgir entre os mongóis. Aliado ao ressurgimento dos povos conquistados e dos turcos a leste, a divisão política fez com que os chagatai fossem inteiramente absorvidos ainda no início do Século XV. A influência das conquistas de Tamerlão viu-se no adiamento da queda de Constantinopla, e na introdução da cultura mongol na Índia (cujo último imperador mongol só seria deposto no final do Século XIX).

A herança mais duradoura de Tamerlão não foi política, mas no campo das artes. O povo mongol era rude e pouco preocupado com a atividade artística, mas os mestres artífices deportados nas conquistas de Timur produziram um prolífico acervo de obras em metal, madeira, laca, pedras preciosas, pinturas. Samarcanda, Bucara e outras cidades se tornaram obras de arte da arquitetura, com suas grandes e belas mesquitas, torres e palácios (embora o próprio Tamerlão vivesse em uma tenda, ou na sela de um cavalo) decoradas com ricos ladrilhos, mosaicos e pinturas, retratando não só motivos abstratos típicos da arte islâmica, mas também cenas da natureza, do cotidiano e da própria vida de Timur, o Coxo. Historiadores e poetas prosperaram sob o patrocínio de Tamerlão, e perpetuaram sua arte ao longo dos anos seguintes à sua morte.

A nova nação da Ásia central, o Uzbequistão, está reabilitando Tamerlão como um herói nacional. Uma magnífica estátua equestre domina a principal praça da capital do país, Tashkent, substituindo o busto de Karl Marx, que estivera no local durante a era soviética, o qual já substituíra a estátua anterior de Stálin, que substituíra a estátua original do czarista Konstantin Kaufman, conquistador russo da Ásia central. Aparentemente, aquela praça nunca honrou uma pessoa viável.