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domingo, 10 de março de 2013

Gerra dos Cem Anos

A expressão Guerra dos Cem Anos, surgida em meados do século XIV, identifica uma série de conflitos armados, registrados de forma intermitente, durante o século XIV e o século XV (de 1337 a 1453, concordando com as datas convencionais), envolvendo a França e a Inglaterra. Embora a guerra tenha durado 116 anos o tempo foi arredondado para 100. A longa duração desse conflito explica-se pelo grande poderio dos ingleses de um lado e a obstinada resistência francesa do outro. Ela foi a primeira grande guerra europeia que provocou profundas transformações na vida econômica, social e política da Europa Ocidental. A França foi apoiada pela Escócia, Boêmia, Castela e Papado de Avinhão. A Inglaterra teve por aliados os flamengos, alemães e portugueses. A questão dinástica que desencadeou a chamada Guerra dos Cem Anos ultrapassou o caráter feudal das rivalidades político-militares da Idade Média e marcou o teor dos futuros confrontos entre as grandes monarquias europeias.

O Reino da França

No início do século XIV, o reino da França, drenado por grandes bacias fluviais e desfrutando de um clima favorável para a agricultura, estava florescendo, com seus 17 milhões de habitantes, a primeira potência em termos demográficos da Europa. A sociedade agrícola baseia-se em um sistema feudal e religioso muito hierarquizado. A produção agrícola é capaz de alimentar a população (não havia mais fome desde o século XII) e necessita da nobreza para defender a terra.

O clero desempenha um importante papel social na organização da sociedade. Os clérigos são alfabetizados e têm habilidades na aritmética e gestão das instituições; os religiosos administram organizações de caridade e escolas onde somando-se com os feriados religiosos, o número de feriados chega a 140 por ano.

Os Atritos

Guilherme I,
de Inglaterra
Historiograficamente é registrada entre 1334 a 1452. As suas causas remotas prendem-se à época em que o duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, apoderou-se da Inglaterra em (1066). Desde Guilherme, os monarcas ingleses controlavam extensos domínios senhoriais em território francês, ameaçando o processo de centralização monárquica da França que se esboçava desde o século XII. Durante os séculos XII e XIII, os soberanos franceses tentaram, com crescente sucesso, restabelecer a sua autoridade sobre esses feudos.


No século XII, o rei Henrique II da Inglaterra se casou com Leonor da Aquitânia e, segundo as tradições feudais, tornou-se vassalo do rei da França nos ducados da Aquitânia (Antiga Guiena, Guyenna ou Guyenne) e Gasconha. Desde então, as relações entre os reis da Inglaterra e França foram marcadas por conflitos políticos e militares. Isso culminou na questão da soberania sobre a Gasconha. Pelo Tratado de Paris (1259), Henrique III de Inglaterra abandonara as suas pretensões sobre Normandia, Maine, Anjou, Touraine e Poitou, conservando apenas a Gasconha. Os constantes conflitos vinham pelo fato do rei inglês, que era duque da Gasconha, ressentir-se de ter de pagar pela região aos reis franceses e de os vassalos gascões frequentemente apelarem ao soberano da França contra as decisões tomadas pelas autoridades inglesas na região.

As influências francesa e inglesa em Flandres (atual Bélgica e Países Baixos) eram também opostas, pois os condes desse território eram vassalos da França e, por outro lado, a burguesia estava ligada economicamente à Inglaterra. Além do intenso comércio estabelecido na região, Flandres era importante centro produtor de tecidos, que consumia grande parte da lã produzida pela Inglaterra. Essa camada urbana vinculada à produção de tecidos e ao comércio posicionava-se a favor dos interesses ingleses e portanto, contra a ingerência política francesa na região. Resolveram, flamengos e ingleses, estabelecer uma aliança, que irritou profundamente o rei da França, também interessado na região. Com muita sabedoria, eles obedeceram à nova lei pública na Europa, portanto estavam numa crise de guerras Europeias.

Retrato do monarca inglês
Eduardo III
O estopim dos conflitos se deu com o problema sucessório resultante da morte do terceiro e último filho de Filipe IV, o Belo, Carlos IV, em 1328. Entre os possíveis sucessores estavam: o rei inglês Eduardo III, da dinastia Plantageneta, sobrinho do falecido monarca pelo lado materno, detentor dos títulos de duque da Aquitânia e conde de Ponthieu (na região do canal da Mancha); e o nobre francês Filipe, conde de Valois, sobrinho de Filipe IV, o Belo, pertencente a um ramo secundário da família real. As pretensões dos dois foram examinadas por uma assembleia francesa que, apoiando-se na lei sálica, segundo a qual o trono não poderia ser ocupado por um sucessor vindo de linhagem materna, inclinou-se para o candidato nacional, aclamando o sobrinho, Filipe de Valois, com o título de Filipe VI. O rei inglês não discutiu a decisão, reconhecendo Filipe VI em Amiens em 1329.

O Conde de Nevers, regente de Flandres desde 1322, prestou juramento de obediência ao seu suserano Filipe VI, decisão que poderia paralisar a economia flamenga.

Eduardo III, após a intervenção de Filipe VI em Flandres apoiando o conde contra os amotinados flamengos, suspende as exportações de lãs. A burguesia flamenga forma um partido a favor do rei de Inglaterra, incitando-o a proclamar-se rei de França. Assim, Eduardo III, instigado por Jacques Artervelde - rico mercador que já havia liderado uma rebelião na cidade flamenga de Gante - e temendo perder o ducado francês de Ducado da Aquitânia - mantido como feudo de Filipe VI -, repudiou o juramento de Amiens e alegou a superioridade de seus títulos à sucessão.

Os franceses acusavam os ingleses de desenvolverem uma política expansionista, percebida pelos interesses na Aquitânia e em Flandres. Já os ingleses insistiam em seus legítimos direitos políticos e territoriais na França. Embora tenham ocorrido crises anteriores, em geral, a data de 24 de maio de 1337 é considerada como o início da guerra: nesse dia, após uma série de discussões, Filipe VI, cônscio da grave ameaça que representava para os seus domínios a existência de um ducado leal à coroa inglesa, apoderou-se de Aquitânia. Eduardo respondeu imediatamente: não reconheceu mais "Filipe, que dizia ser rei da França", e ordenou o desembarque de um exército em Flandres. Iniciava-se a Guerra dos Cem Anos. A situação se deteriorou diante do auxílio francês à independência da Escócia nas guerras que Eduardo III e o seu pai haviam iniciado contra os reis escoceses para ocupar o trono desse país.

Principais batalhas

Entre os episódios mais importantes do conflito citam-se:
A Batalha de Sluys (1340)
A Batalha de Crécy (1346)
A Batalha de Calais (1347)
A Batalha de Poitiers (1356)
A Batalha de Cocherel (1364)
A Batalha de Azincourt (1415)
O Cerco a Orléans (1429)
A Batalha de Jargeau(1429)
A Batalha de Meung-sur-Loire (1429)
A Batalha de Patay (1429)
A Batalha de Formigny (1450)
A Batalha de Castillon (1453)

Períodos da Guerra

A Guerra Eduardiana (1337-1360)
A Gerra Carolíngea (1369 - 1389) 
Interlúdio de Insanidade e Paz (1389 - 1415) 
Henrique V
A Borgonha Rompe Com a França 
Joana D'Arc

Legado

A guerra dos Cem Anos dividiu a França e a Inglaterra em dois países distintos, e isso nem sempre fora aparente. No mapa, a grande mudança foi que não havia mais grandes feudos ingleses em território francês.

O principal legado cultural foi que o povo inglês começou a abandonar o "francesismo", prevalente desde a conquista normanda. Conforme se sucediam as batalhas, os reis ingleses aprenderam a atiçar a cultura inglesa em detrimento da francesa. Em 1362 foi instalado o Parlamento na Inglaterra pela primeira vez. Também os atos na corte passaram a ser feitos em inglês. Em 1404, com o crescente sentimento de nacionalismo, a Inglaterra decretou que as negociações com os franceses seriam feitas em latim, uma língua neutra, em vez de o serem em francês, a língua do inimigo.

Do lado francês, o principal resultado foi político. A guerra dizimara a nobreza francesa, e poucos nobres restaram para contestar o poder do rei. A fase final da guerra concentrara o poder na Coroa, e levara a França o mais perto de uma monarquia centralizada do que se poderia encontrar na Europa naquela época. A França se tornou a nação mais poderosa do continente, e se manteria nessa situação pelos próximos quatrocentos anos.

Curiosidade

1. A pólvora foi pela primeira vez utilizada como arma em combate na Europa nos campos de Crecy, pelas tropas inglesas. O pedreiro causava mais ruído do que estragos materiais, mas foi eficiente para assustar a cavalaria francesa.

2. Joana d'Arc, heroína francesa no conflito, quase cinco séculos após a sua execução na fogueira por suposta prática de feitiçaria, foi canonizada pela Igreja Católica, em 1920, como Santa Joana d'Arc. Deve-se, no entanto, recordar que, já em 1456, Joana foi declarada inocente pelo Papa Calisto III, confirmando que a Igreja da Inglaterra, nesse julgamento, agiu por conta própria, por pressão dos ingleses e interesses políticos.

3. Apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos durou exatos 116 anos.

sábado, 9 de março de 2013

Períodos da Guerra dos Cem Anos

A expressão Guerra dos Cem Anos, surgida em meados do século XIV, identifica uma série de conflitos armados, registrados de forma intermitente, durante o século XIV e o século XV (de 1337 a 1453, concordando com as datas convencionais), envolvendo a França e a Inglaterra. Embora a guerra tenha durado 116 anos o tempo foi arredondado para 100. A longa duração desse conflito explica-se pelo grande poderio dos ingleses de um lado e a obstinada resistência francesa do outro. Ela foi a primeira grande guerra europeia que provocou profundas transformações na vida econômica, social e política da Europa Ocidental. A França foi apoiada pela Escócia, Boêmia, Castela e Papado de Avinhão. A Inglaterra teve por aliados os flamengos, alemães e portugueses. A questão dinástica que desencadeou a chamada Guerra dos Cem Anos ultrapassou o caráter feudal das rivalidades político-militares da Idade Média e marcou o teor dos futuros confrontos entre as grandes monarquias europeias.


Batalha de Sluis;
do livro de crônicas de
Jean Froissart (século XIV).
Filipe VI exerceu intenso assédio ao litoral inglês durante meses, até ser derrotado em 1340. As hostilidades começaram seriamente com a batalha naval de Sluys, além do rio Escalda, em 1340, onde a frota inglesa foi vitoriosa. Eduardo III tentou conquistar a França, vencendo grande parte dos combates em Crécyen-Pomthieu (1346), Calais (1347). As duas vitórias inglesas garantiram a Eduardo III importantes posições no norte da França, mantendo o canal da Mancha sob seu controle. Para tanto o rei da Inglaterra contou com o apoio financeiro de grandes mercadores de Flandres e do duque da Bretanha, que voltou-se contra o monarca francês. O avanço e a conquista inglesa só não foram maiores porque após a batalha de Crécy, ocorreu a chamada "Peste Negra", que dizimou praticamente um terço da população europeia. A peste foi responsável por interromper a guerra.

Batalha de Poitiers (1356).
Vários anos depois, quando se retomaram os combates, Eduardo III havia conquistado o apoio do rei de Navarra, Carlos II, e a inestimável ajuda militar de seu filho Eduardo, o príncipe de Gales, conhecido como o príncipe negro (por conta da cor de sua armadura). Esse período foi caracterizado por sucessivas vitórias inglesas, contando com o apoio de muitos nobres locais, mais preocupados em preservar seus domínios do que com a lealdade devida ao rei da França, possibilitando o domínio de cerca de um terço do território francês nas regiões norte e oeste. O Príncipe Negro conseguiu tomar como prisioneiro o sucessor de Filipe, João II, o Bom na Batalha de Poitiers (1356), e posteriormente, exigiu resgate por sua libertação. Uma insurreição popular (Jacquerie) complicou as coisas: revoltados com a miséria, os camponeses se lançavam contra os senhores feudais, enquanto a burguesia de Paris, indignada pelas calamidades da guerra e liderada por Étienne Marcel, clamava por mudanças políticas. O filho de João, o Bom, o futuro Carlos V, atendeu as questões internas e negociou a paz com Eduardo III. Em 1360, o Tratado de Brétigny, ratificados em Calais, deu a Eduardo um considerável número de territórios na França (Calais e todo o sudoeste francês) em troca do abandono de suas reivindicações ao trono francês.

Segundo período (1364 - 1380)

Carlos V, o Sábio
A morte de João II (1364), que permanecera em mãos dos ingleses, marcou o recrudescimento das hostilidades, pois seu filho Carlos (1364-1380), que o sucedeu no trono francês com o nome de Carlos V, negou-se a respeitar os tratados firmados em 1360. Dessa vez os franceses atacaram com êxito o inimigo pois a França desfrutava de uma melhor posição.

Sob Carlos V, os franceses, graças a unificação de seus exércitos, recuperaram boa parte do território meridional do Reino da França. Neste período destacou-se o condestável francês Bertrand Du Guesclin, cavaleiro valente e notável militar que organizou as famosas "campanhas brancas" (sistema de guerrilhas). A luta se estendeu a Castela, com a França apoiando o candidato à coroa, Dom Henrique, contra Dom Pedro aliado da Inglaterra. As vitórias do monarca francês, fruto da reorganização militar, fortaleceram a ideia de centralização política, possibilitou submeter a maior parte da nobreza, aumentar a arrecadação tributária e organizar o Estado com elementos oriundos da burguesia em cargos de confiança.

Em 1377, com escassos meses de distância entre um e outro, faleciam o príncipe de Gales e Eduardo III. O sucessor do trono inglês era o neto do monarca falecido, Ricardo II, de apenas dez anos de idade. A morte do monarca da França Carlos V, em 1380, esfriou o ânimo dos franceses.

Terceiro período (1380 - 1422)

Nas últimas décadas do século XIV e as décadas iniciais do século seguinte foram marcadas pelas disputas internas nos dois países, arrefecendo momentaneamente a guerra externa.

No caso da Inglaterra, o reinado de Ricardo II, investido do poder assim que alcançou a maioridade (1389), viu as hostilidades praticamente cessarem. Porém, ocorreram rebeliões camponesas lideradas por Wat Tyler, contra a servidão, e posteriormente as disputas envolveram parte da nobreza, que lutou contra o rei, e culminou com a ascensão de Henrique de Lencastre ao trono, em 1399, com o título de Henrique IV.

Carlos VI, o Insensato.
Na França, as lutas internas foram mais complexas e envolveram os interesses da região da Borgonha, antigo feudo poderoso, que lutou constantemente por seus interesses particulares. Em 1380, quando os ingleses nada mais ocupavam senão Calais e a Aquitânia, morreu Carlos V na França, abrindo caminho para a ascensão do herdeiro Carlos VI, o Insensato, de doze anos. Houve uma série de disputas pelo poder, que culminou com a cisão da nobreza francesa em dois partidos: os armagnacs, partidários da família de Orléans, e os borguinhões, partidários dos duques de Borgonha. Em considerando Carlos VI como incapaz, os Borguinhões pretenderam tomar o poder e, após várias derrotas, aliaram-se aos ingleses. Ao lado da família real ficaram o irmão do rei, Luis de Orléans e Bernardo de Armagnac. Nesta guerra civil, destacaram-se João Sem Medo da Borgonha e o Delfim Carlos.

A retenção inglesa de Calais e Bordeaux, no entanto, impediu a paz permanente. Na França, a evidente incapacidade mental do rei, Carlos VI, desencadeou acirradas disputas pelo trono entre seus irmãos. A eclosão da guerra civil na França (luta entre Armagnacs, partidários dos Orléans, e os Borguinhões, partidários do duque de Borgonha), além da loucura do rei Carlos VI, animou o novo rei inglês, Henrique V, a insistir em suas reivindicações no tocante ao trono francês (invocando a lei sálica). Henrique V, primo de Ricardo II, assumira a coroa em 1413.

Batalha de Azincourt
em miniatura do século XV.
A guerra civil e a loucura do rei Carlos VI permitiram novas conquistas dos ingleses. Em 1415, Henrique V desembarcou na Normandia, invadindo e tomando Harfleur. Neste mesmo ano, travou-se a batalha de Azincourt (ou Agincourt), num terreno em que a chuva transformara num atoleiro. A orgulhosa cavalaria francesa foi massacrada e milhares de nobres franceses pereceram. Seguiu-se a ocupação de Paris (1415), da Normandia (1419) e de outras regiões no norte da França, obrigando a assinatura da paz, com a cumplicidade de Isabel da Baviera. O Tratado de Troyes (1420), que garantia a Inglaterra todo o norte do país (inclusive Paris) e, o mais grave, forçou Carlos VI a deserdar do trono seu filho, o Delfim Carlos VII. Henrique V casou-se com a princesa Catarina, filha de Carlos VI, ficando com o direito de herdar o trono.

A Borgonha Rompe Com a França

João, o Destemido, o mais recente duque da Borgonha, não participara da campanha em Azincourt porque sua casa ainda disputava com o restante da família real francesa sobre quem deveria subir ao trono da França depois da morte de Carlos, o Louco. Em 1418, as forças borgonhesas arrebataram Paris da  guarnição do rei Carlos para mostrar que o duque falava a sério.

No ano seguinte, o filho adolescente do rei, chamado de Delfim ou Príncipe Coroado, encontrou-se com João, o Destemido, numa ponte em Montereau para negociar um acordo, mas o príncipe montou uma emboscada e matou o duque. Aborrecido com a traição, o novo duque da Borgonha passou para o lado inglês na guerra, levando Paris consigo. O Delfim fugiu para o interior, de modo que, quando Carlos, o Louco, morreu, em 1422, o príncipe não pode assumir o título de rei. Os ingleses mantiveram a posse de Paris como trunfo de seu pretendente ao trono francês, o rei Henrique, ainda bebê.

Depois do assassinato de João Sem Medo, duque de Borgonha e um dos contendores na guerra civil da França, Henrique V aliara-se ao filho do duque, Filipe, o Bom. A união teve sucesso e até 1422 o rei inglês e o novo duque de Borgonha controlaram todo o território francês ao norte do Loire, incluindo Paris e a Aquitânia.

Naquele ano, morreram tanto Carlos VI quanto Henrique V, o que faz com que as duas coroas (a da França e da Inglaterra) fossem herdados por Henrique VI, que ainda era uma criança recém nascida. Dois barões ingleses encarregaram-se da regência: o Duque de Badford se ocupou da França e o Duque de Gloucester passou a administrar a Inglaterra. Carlos VII, o Delfim, assumiu a realeza em Bourges. Assim, a França encontrava-se dividida em dois reinos: nos territórios do norte, governava o rei inglês, apoiado pelos borguinhões; nos poucos territórios do sul, reinava o francês Carlos VII, com o apoio dos armagnacs.

Quarto Período (1422 - 1453)

O Delfim, porém, instalara-se no vale do Loire e dali passou a liderar a resistência francesa aos invasores. É nesse momento que aparece em cena uma camponesa mística e visionária de Domrémy: Joana d'Arc, que conseguiu desarmar uma conspiração para matar o soberano. Os regentes do ineficaz Henrique VI foram perdendo o controle dos territórios conquistados para as forças francesas, sob a liderança de Joana d'Arc.

Pintura Romântica de
Joana d'Arc na
Batalha de Orléans
Com a França em perigo Joana d'Arc organizara um exército completamente diferente dos exércitos feudais. Guerra era assunto para nobres e homens em geral. Seu exército era liderado por uma mulher camponesa. Os exércitos feudais lutavam por seu senhor e seu feudo. O de Joana d'Arc era um exército nacional, que lutava pela França e por seu rei. Os franceses, agora, sentiam-se integrantes de um país. A ideia de nação estava lançada.

Joana d'Arc conseguiu do Delfim um exército de aproximadamente cinco mil homens e libertou a praça forte de Orléans (1429). Essa vitória fez Filipe, o Bom, abandonar seus aliados ingleses e aceitar a autoridade de Carlos VII. Depois conquistou Reims, no norte do país, onde Carlos VII foi coroado segundo as antigas tradições. Carlos VII, aproveitando as discórdias da Guerra das Duas Rosas na Inglaterra, empreendeu eficaz reestruturação militar que culminará com a conquista da Aquitânia em 1453.

Em 1430, aprisionada pelos borguinhões, Joana D'Arc foi entregue aos ingleses, em Compiègne. Foi julgada herética por um tribunal eclesiástico e queimada na fogueira, em 1431, em Rouen (ou Ruão).

Batalha de Castillon.
O impulso, entretanto, estava dado. Os franceses, incentivados pelo martírio de Joana d'Arc, bateram os ingleses em Formigny (1450), tendo conquistado a Normandia e grande parte da Gasconha. O fim da guerra é marcado pela batalha de Castillon, em 1453, quando foi capturada a cidade de Bordeaux, o último reduto inglês. Isto significou, efetivamente, o fim da guerra, e desde então os ingleses mantiveram apenas Calais, que conservaram até 1558. Eles foram forçados a voltar sua atenção aos assuntos internos, principalmente às guerras das Rosas e desistiram de todas as reivindicações sobre a França. Nenhum tratado foi assinado de forma a assinalar o fim das hostilidades. A rivalidade anglo-francesa, no entanto, ainda perduraria por muito tempo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Guerra Eduardiana (1337-1360)

Coroação de Eduardo III.
Desde a época da Conquista Normanda da Inglaterra, em 1066, a Inglaterra vinha sendo governada por franceses, para sermos sinceros. Os historiadores os chamam de ingleses, mas a maior parte da nobreza inglesa falava francês como sua primeira língua. As leis do país eram escritas em francês. A nobreza inglesa tinha grandes propriedades e casas de verão na França, e o rei da Inglaterra frequentemente possuía tantas terras na França quanto o rei francês. Eles eram franceses em tudo, exceto na geografia.

Quando o rei da França morreu, sem deixar filhos, em 1328, seu primo-irmão, o rei Eduardo III da Inglaterra reivindicou o trono para si. Em vez de aceitar a reivindicação, a nobreza francesa escolheu um nobre fraco, que eles podiam dominar, em vez de um rei poderoso, tal como seria Eduardo da Inglaterra. É claro que ele ficou furioso.

Como as guerras e intrigas locais o deixavam ocupados, Eduardo não se lançou à guerra para fazer valer seus direitos senão depois de decorridos dez anos. Por essa época, ele já tinha uma impressionante nova arma no seu arsenal. Ele vira pela primeira vez o arco longo ao caçar faisões nas fronteiras selvagens com o País de Gales. Feito de árvore chamada teixo e da altura de um homem, o arco exigia enorme força física para ser vergado, mas com ele um arqueiro treinado poderia, com uma flecha, atravessar três centímetros de carvalho sólido, a duzentos metros de distância, e uma couraça de armadura a cem metros. Impressionado como o arco comprido matava facilmente seus melhores cavalheiros e quebrara o ímpeto de seus ataques, Eduardo fez com que esses arqueiros constituíssem uma parte integral de seu próprio exército.

Batalha de Sluys, em 1340.
Como a guerra medieval raramente era secreta, os franceses, cientes do conflito que se aproximava, haviam reunido uma armada e se aprontaram para atacar primeiro, mas a frota inglesa encurralou os navio franceses em Sluys, no porto de Bruges, em 1340. Arqueiros apinhados a bordo dos navios ingleses varreram as tripulações dos barcos franceses, e deixaram os ingleses com o controle do Canal da Mancha. "Os peixes beberam tanto sangue francês, foi dito depois, que, se Deus lhes tivesse dado o dom da fala, eles teriam falado francês".

Depois que os ingleses desembarcaram na França em 1346, os dois exércitos ficaram manobrando, um em torno do outro, no norte daquele país por diversos meses, tentando encurralar o outro no campo de batalha mais desvantajoso. O rei Eduardo percebeu que o melhor uso tático de sua força era dispor cavaleiros desmontados, soldados de infantaria e arqueiros em uma linha defensiva tipo porco espinho, eriçada de lanças, espadas e machados de batalha, e depois fazer com que os franceses atacassem. 

Crecy

Batalha de Crecy,
em 26 de agosto de 1346
Finalmente, em Crecy, os ingleses tomaram uma forte posição no alto de uma colina e esperaram os franceses chegar. Quando começou a batalha, os franceses estavam tão ansiosos de atacar os ingleses que, para chegar às linhas de frente, eles atropelaram seus próprios arqueiros que recuavam. No primeiro embate, seus grandes e pesados corcéis de batalha viraram alvos ideais para os arqueiros ingleses. Depois os cavaleiros franceses, desmontados e com pesadas armaduras, se estafaram, escorregando e se esfolando para subir os aclives lamacentos, todo o tempo acossados pelos arqueiros ingleses. Quando a refrega chegou ao fim, as perdas francesas eram espantosas, deixando as fileiras da nobreza fortemente desfalcadas. 

O avanço e a conquista inglesa só não foram maiores porque após a batalha de Crécy, ocorreu a chamada "Peste Negra", que dizimou praticamente um terço da população europeia. A peste foi responsável por interromper a guerra.

Calais

Cerco de Calais, em 1346.
Para consolidar seu controle sobre o norte da França, os ingleses colocaram o porto de Calais, no Canal da Mancha, sob longo e frustrante sítio. Finalmente, os líderes da cidade, que morria de inanição, ofereceram se render. Os ingleses estavam planejando o costumeiro massacre dos defensores, como castigo por lhes terem dado tanto trabalho, mas aqueles líderes se ofereceram para serem mortos, desde que fossem poupadas as vidas dos habitantes. Sua coragem comoveu o coração da rainha inglesa, que obviamente não conhecia nada sobre a maneira adequada de se fazer a guerra. Ela insistiu com o marido para que mostrasse misericórdia. Eduardo cedeu, provavelmente com um suspiro de cansaço, de modo que os líderes e a população de Calais foram expulsos da cidade, em vez de serem mortos. Em seguida, a cidade foi inteiramente anglicizada.

O Príncipe Negro e a Batalha de Poitiers
Eduardo III e o Príncipe Nego.

Com o norte sob controle, a guerra se moveu para o sul. Em 1356, o filho do rei, Eduardo, o Príncipe, saiu saqueando o país a partir da Equitânia, região francesa controlada pelos ingleses na costa oeste. Chefiando seu exército, ele atravessou 420 quilômetros do centro da França, queimando cidades e castelos, a fim de provocar o rei francês, desafiando-o para a batalha. Quando chegaram ao rio Loire, entretanto, os ingleses descobriram que os franceses haviam destruído as pontes, ficando os ingleses sem recursos, a 250 quilômetros do Canal da Mancha. Os invasores fizeram meia volta para retornar a seu país, mas o exército francês os alcançou em efetivo na proporção de cinco para um. 

Batalha de Poitiers.
Como os cavalos eram alvos grandes, vulneráveis para os arqueiros ingleses, os franceses decidiram avançar a pé. Sua primeira onda chegou exausta e foi massacrada. Enquanto tentavam recuar, os soldados tropeçaram na segunda onda, que também virou um caos. Finalmente o rei João I, da França, reagrupou e liderou a terceira e maior onda na direção da posição inglesa, exatamente na hora em que os ingleses faziam uma sortida, para se aproveitar da vantagem que tinham. Os ingleses sobrepujaram a nobreza francesa e a lançaram numa retirada precipitada na direção da segurança da cidade de Poitiers, mas quando chegaram lá os franceses encontraram os portões fechados. A cavalaria inglesa se aproximou e facilmente massacrou os cansados sobreviventes da batalha. A França estava ficando com escassez de nobres e de opções.

Entre os cativos da Batalha de Poitiers estavam o rei João da França e seu filho, os quais foram levados para a Inglaterra. O Príncipe Negro os levou em uma parada real, onde foram ovacionados pela população. Apenas pelo fato de os depois países estarem em guerra, não havia razão para ser mal educado com um hóspede. As negociações para a soltura dos reféns não foram adiante, e o rei francês morreu ainda como prisioneiro, em Londres, em 1364.

Depois de negociada uma trégua em 1360, o exército inglês deveria levantar acampamento e voltar para casa, mas um grande número de mercenários subitamente desempregados não tinha um lar aconchegante para onde voltar. Eles haviam gostado de viver às custas dos franceses conquistados e recusaram-se a desistir. Em vez disso, ficaram na França e percorreram o interior com exércitos predatórios, saqueando, estuprando e extorquindo a população.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Era Henrique V

Henrique V, da Inglaterra.
Depois de quase uma geração completa de paz, o novo rei da Inglaterra, Henrique V, decidiu levantar o problema de novo. Esperando se aproveitar do caos que era a corte francesa, invadiu a França em 1415. Depois de conquistar o porto de Harfleur num sangrento assalto, ele perseguiu o exército francês numa longa marcha através da lama, da chuva e de um pegajoso clima de outono. A doença e a falta de alimentos retardaram e enfraqueceram suas tropas, e em seguida o exército francês se postou no seu caminho, pronto para a luta, em Azincourt.

Embora inferiorizados em efetivo na proporção de dois para um, pelo menos, os ingleses assumiram uma forte posição defensiva num terreno estreito, com ambos os flancos ancorados em bosques. Lá, esperaram e acossaram os franceses com nuvens de flechas partidas de seus arcos compridos. Alucinados além de qualquer conduta racional, a linha principal de cavaleiros franceses atacou ainda debaixo de uma mortal chuva de flechas. Quando as duas linhas inimigas de infantaria pesada finalmente se encontraram, os franceses já estavam cansados, frustrados e eram em menor número que os ingleses. Houve um massacre.

Nesse ínterim, atrás das linhas inglesas, um bando de camponeses franceses fez uma sortida no acampamento de Henrique para saquear e roubar. Com o caos acontecendo atrás dele, Henrique ficou preocupado com os prisioneiros franceses sob sua guarda, que poderiam se rearmar e atacar sua retaguarda, de modo que ele ordenou que os matassem. Os nobres ingleses se recusaram a cometer um ato tão vil, de modo que o rei passou a ordem para seus arqueiros, que eram camponeses e tinham menos escrúpulos a respeito de violar as regras de cavalheirismo. Mais ou menos ao mesmo tempo, o exército francês fugia da linha de frente dos ingleses, dando a estes a vitória.

Completando mais um massacre da nobreza francesa, Henrique V pôde ditar os termo da paz. O rei francês Carlos VI, o Louco, concordou que Henrique V, da Inglaterra, fosse seu sucessor no trono da França, e, para selar o acordo, o rei inglês casou-se com a filha de Carlos, Catarina. Infelizmente Henrique morreu antes do rei Carlos, o que deixou o filho de Henrique V, Henrique VI, na época um bebê, como novo rei da França. O destino do tratado ficou então incerto.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Joana d'Arc

Joana d'Arc (6 de janeiro de 1412 — Ruão, 30 de maio de 1431), por vezes chamada de donzela de Orléans, era filha de Jacques d'Arc e Isabelle Romée. É a santa padroeira da França e foi uma chefe militar da Guerra dos Cem Anos, durante a qual tomou partido pelos Armagnacs, na longa luta contra os borguinhões e seus aliados ingleses. Foi executada pelos borguinhões em 1431.

Camponesa, modesta e analfabeta, foi uma mártir francesa e também heroína de seu povo, canonizada em 1920, quase cinco séculos depois de ter sido queimada viva em um auto de fé.

Segundo a escritora Irène Kuhn, Joana d'Arc foi esquecida pela história até o século XIX, conhecido como o século do nacionalismo, o que pode confirmar as teorias de Ernest Gellner. Irène Kuhn escreveu: Foi apenas no século XIX que a França redescobriu esta personagem trágica.

Antes aos fatos relacionados, Shakespeare tratou-a como uma bruxa; Voltaire escreveu um poema satírico, ou pseudo-ensaio histórico, que a ridicularizava, intitulado La Pucelle d´Orléans ou A Donzela de Orléans

Guerra dos Cem Anos 

Em 9 de maio de 1920, cerca de 500 anos depois de sua morte, Joana d'Arc foi definitivamente reabilitada, sendo canonizada pelo Papa Bento XV - era a Santa Joana d'Arc. A canonização traduzia o desejo da Santa Sé de estender pontes para a França republicana, laica e nacionalista. Em 1922 foi declarada padroeira de França. Joana d´Arc permanece como testemunha de milagres que pode realizar uma pessoa, ainda que animada apenas pela energia de suas convicções, mesmo adolescente, pastora e analfabeta,2 de modo que seu exemplo guarda um valor universal.

Por volta dessa época, 1429, uma camponesa adolescente ouviu as vozes desencarnadas de santos ordenando-lhe que se armasse, montasse num cavalo e salvasse a França. Como se estava na Idade Média, ela não foi sedada e enviada de cadeira de rodas a um quarto de hospital por seus parentes preocupados. Em vez disso, ela obedeceu às vozes e procurou a corte francesa, refugiada no interior. Depois de convencer o Delfim que realmente ouvira santos sussurrando-lhe ao ouvido, Joana liderou o exercito contra as forças inglesas que sitiavam Orleans, uma passagem crucial sobre o rio Loire, que estancara o avanço dos hunos de Átila, mil anos antes.

Na verdade, a situação dos franceses em Orleans não era tão ruim assim, nem os ingleses tinham uma vantagem avassaladora. Provavelmente o sítio teria sido levantado se qualquer um tentasse a empreitada; entretanto os franceses quase já estavam desistindo. O moral estava baixo e eles já haviam aceitado passivamente que a cidade cairia. A chegada de Joana levantou o espírito de luta dos franceses, que atacaram e expulsaram os ingleses da região.

Depois que a guerra passou a ser travada em campo aberto, Joana encurralou o exército inimigo, esperando uma fraqueza por parte dele. Finalmente, em Patay, ela avançou contra os ingleses antes que eles conseguissem estabelecer uma linha defensiva. O ataque francês trucidou os ingleses e capturou a maior parte de seus comandantes. Isso abriu caminho para a cidade de Reims, onde os novos reis eram tradicionalmente coroados, de modo que o Delfim subiu ao trono com o nome de Carlos VII da França.

Em 1430, os borgonheses capturaram Joana e a venderam aos ingleses, que então convocaram clérigos complacentes de Paris para julgá-la. Joana foi declarada culpada de usar roupas de homem e queimada viva como bruxa.

A principal contribuição de Joana para a guerra fora mostrar que os cavaleiros franceses podiam vencer a formação "porco-espinho" dos ingleses, se parassem de ser idiotas. O código de cavalheirismo francês exigia que eles não fugissem à luta, por mais desfavoráveis que fosse a situação. A tática comum, corrente, usada pelos franceses nas suas derrotas em Crecy, Poitiers e Agincourt, era lançar uma carga de cavalaria contra uma forte posição inimiga. Nunca ocorrera aos franceses esperar até que pudessem surpreender os ingleses em desvantagem. Joana teve a autoridade moral para convencer os cavaleiros a modificar suas regras rígidas, e a colocar mais inteligência nos ataques. Com seu encorajamento, inspirado por Deus, os franceses começaram a aplicar táticas modernas no seu esforço de guerra.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eduardo III

Eduardo III (Windsor, 13 de novembro de 1312 – Londres, 21 de junho de 1377) foi o Rei da Inglaterra de 1327 até sua morte; ele é lembrado por seus sucessos militares e por restaurar a autoridade real depois do desastroso reinado de seu pai, Eduardo II. Eduardo III transformou o Reino da Inglaterra em uma das maiores potências militares da Europa. Durante seu reinado também houve grandes desenvolvimentos na legislação e no governo – particularmente na evolução do parlamento inglês – além de devastações causadas pela Peste Negra. Ele é um de cinco monarcas britânicos a terem reinado a Inglaterra ou algum de seus reinos sucessores por mais de cinquenta anos. 

Eduardo foi coroado rei aos quatorze anos de idade depois de seu pai ter sido deposto por sua mãe e Rogério Mortimer. Aos dezessete anos ele liderou um golpe contra Mortimer, o verdadeiro governante do país, começando seu reinado pessoal. Depois de uma campanha bem sucedida na Escócia, em 1337 ele declarou-se herdeiro legítimo do trono francês, iniciando aquilo que ficaria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Apesar de alguns reveses iniciais, a guerra progrediu muito bem para a Inglaterra; vitórias em Crécy e Poitiers levaram ao favorável Tratado de Brétigny. Os anos finais de Eduardo foram marcados por fracassos internacionais e lutas internas, principalmente por causa de sua inatividade e fraca saúde. 

Eduardo III era um homem temperamental, porém capaz de clemência incomum. Ele é de muitas maneiras um rei convencional cujo principal interesse era a guerra. Admirado na sua época e nos séculos seguintes, Eduardo foi chamado de um aventureiro irresponsável por historiadores posteriores como William Stubbs. Essa visão foi contestada recentemente e historiadores modernos lhe creditam com realizações importantes. 

Infância  

Eduardo nasceu em Windsor, na Inglaterra, a 13 de novembro de 1312. O reinado de seu pai ficou marcado por derrotas militares, rebeliões e corrupção da nobreza, mas o nascimento de um herdeiro masculino em 1312 permitiu manter Eduardo II no trono. Assim, no que será provavelmente uma tentativa de seu pai em restaurar a autoridade real após anos de descontentamento, Eduardo é proclamado conde de Chester com doze dias de idade, e menos de dois meses depois o seu pai fornece-lhe um conjunto de criados para a sua corte. Tem assim uma certa autonomia e pode viver como um príncipe. Tal como todos os reis de Inglaterra desde Guilherme o Conquistador, é educado na língua francesa e não conhece o inglês. 

Destituição de Eduardo II 

A 20 de janeiro de 1327, tendo Eduardo catorze anos, a rainha Isabel de França e o seu amante Rogério Mortimer destituem o rei. Eduardo III é coroado a 1 de fevereiro na abadia de Westminster, em Londres, por Walter Reynolds, arcebispo da Cantuária, com Isabel e Mortimer como regentes. Mortimer torna-se o dirigente da Inglaterra e submete constantemente o jovem rei ao desrespeito e humilhação. 

Tomada do poder 

Rogério Mortimer soube que a sua posição era precária, e mais ainda quando Eduardo e a sua esposa Filipa de Hainault tiveram um filho, a 15 de junho de 1330. Mortimer utiliza o seu poder para adquirir propriedades e títulos de nobreza tais como conde do País de Gales. A maioria desses títulos eram de Edmundo FitzAlan, nono conde de Arundel, leal a Eduardo II em sua luta frente a Isabel e Mortimer, executado a 17 de novembro de 1326. A ganância e arrogância de Mortimer levaram ao ódio dos nobres, pelo que nem tudo estava perdido para o jovem rei. A execução de Edmundo de Woodstock, irmão de Eduardo II, em março de 1330, indigna os nobres e preocupou Eduardo III que se sentiu ameaçado. 

O jovem e obstinado soberano decidiu governar sozinho e procurou escapar ao mesmo destino que o seu pai e seu tio, e procurou vingar-se das humilhações sofridas. Perto dos 18 anos, Eduardo estava pronto. A 19 de outubro de 1330, Mortimer e Isabel dormiam no castelo de Nottingham. Um grupo fiel a Eduardo entrou na fortaleza por uma passagem secreta e surgiu no quarto de Mortimer. Mortimer foi preso em nome do rei e levado para a torre de Londres. Despojado de suas terras e títulos, foi acusado de usurpar a autoridade real em Inglaterra. A mãe de Eduardo - grávida do filho de Mortimer - suplicou misericórdia ao filho, mas em vão. Sem processo, Eduardo condenou Mortimer a morte. Este foi enforcado a 29 de novembro de 1330. Isabel foi exilada para o castelo de Rising (Norfolk) onde é provável que tenha abortado. Aos 18 anos, a vingança de Eduardo terminou e ele tomou o poder em Inglaterra. 

Reinado 

Em 24 de janeiro de 1328, se casou com Filipa de Hainault, com quem teve uma ampla descendência. Ao contrário de seu pai, Eduardo III tinha uma personalidade forte, revelada logo que atingiu a maioridade. 

Eduardo III dedicou o início da década de 1330 para restaurar o domínio sobre a Escócia, que aproveitara a confusão na política inglesa durante o reinado de Eduardo II e dos anos que se seguiram, para readquirir sua independência. Com a conquista da vitória assegurada na batalha de Halidon Hill, em 1333, Eduardo III voltou-se para outro conflito marcante durante a Idade Média. 

Em 1328, Carlos IV de França, o último dos três filhos de Filipe IV, morreu sem deixar um descendente do sexo masculino. Como na França vigorava a lei sálica, a Coroa passou para Filipe de Valois, um primo distante, que foi coroado como Filipe VI de França. Eduardo III era sobrinho do falecido Carlos IV, pelo lado materno, e considerou a sua pretensão mais razoável que a do Conde de Valois, apesar de a lei sálica tecnicamente o excluir da sucessão. Os franceses não aceitaram essa hipótese que resultaria numa perda de independência e confirmaram Filipe VI como rei. Depois de alguns conflitos diplomáticos, Eduardo III declarou hostilidade aberta à França, iniciando assim a famosa Guerra dos Cem Anos. 

O início das hostilidades foi marcado pelos sucessos da batalha de Crecy (1346) e da batalha de Poitiers (1356), e pela conquista de grande parte do Norte de França. Apesar disso, Eduardo III não fez nenhuma tentativa para ir mais longe e conquistar Paris, por exemplo. Entregado o controle da frente francesa ao filho Eduardo, o Príncipe Negro, que já se mostrava um notável líder militar, Eduardo III se concentrou na guerra com a Escócia. O resultado da campanha do Príncipe Negro foi excelente: a Inglaterra venceu a França na Batalha de Poitiers e Eduardo III teve a honra de ver o rei João II de França como seu prisioneiro. As condições de resgate detalhadas no Tratado de Brétigny garantiam o pagamento de 3.000.000 de coroas para o seu reino e cerca de um terço do território francês. 

Apesar de se respeitarem mutuamente, Eduardo III e o seu primogénito não tinham uma relação muito harmoniosa nem partilhavam a mesma visão de como deveria ser a política interna. O casamento do príncipe de Gales com Joana de Kent tinha sido motivo de grande ressentimento para Eduardo III. No entanto, quando Eduardo de Gales morreu, em 1376, Eduardo III chorou a sua morte e se tornou melancólico. Morreu no ano seguinte, sendo sucedido pelo neto Ricardo. 

Depois da morte de Eduardo III, a sucessão do trono inglês parecia assegurada, seja por Ricardo, ainda muito jovem, seja pelo grande número de filhos que Eduardo gerou. Porém, os conflitos que em breve ocorreriam, entre os diversos ramos da sua descendência, deram origem à Guerra das Rosas, onde os seus netos, divididos entre as casas de York e Lencastre, disputaram a coroa numa sangrenta guerra civil. Durante seu reinado, foi estabelecida a Ordem da Jarreteira. Ele está enterrado na Abadia de Westminster.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eduardo, o Príncipe Negro

Eduardo de Woodstock, Príncipe de Gales (Woodstock Palace, 15 de Junho de 1330 — 8 de Junho de 1376), conhecido na história como o Príncipe Negro, foi o filho mais velho e herdeiro do rei Eduardo III de Inglaterra. Eduardo tornou-se Duque da Cornualha em 1337, Príncipe de Gales em 1343 e da Aquitânia em 1362.

Desde cedo provou ser dotado para a guerra, mostrando a sua coragem com apenas 16 anos, na Batalha de Crécy, onde liderou um dos corpos de infantaria que resistiram à carga da cavalaria pesada francesa. Mais tarde, usando as inovações militares que desequilibraram a Guerra dos Cem Anos a favor de Inglaterra, como a utilização dos arqueiros ingleses e galeses armados de arcos longos de madeira de teixo, Eduardo manteve seguras as posições conquistadas em França, enquanto o seu pai se encarregava da frente escocesa. Após o sucesso da batalha de Poitiers, Eduardo regressa a Inglaterra.

A relação com o pai foi de confiança e respeito mútuos até 1361, data do casamento de Eduardo com Joana de Kent, sua prima direita e viúva. Esta união de amor, totalmente despropositada para a época, contrariou os planos diplomáticos de Eduardo III. Eduardo foi então nomeado Duque da Aquitânia e enviado para o continente para governar esta província. Durante a sua estadia, envolveu-se nos conflitos internos de Castela que acabaram por o arruinar financeiramente. O regresso a Inglaterra esteve longe de ser glorioso. Com a saúde e as finanças num estado débil, nunca mais se envolveu em campanhas militares. Eduardo morreu em junho de 1376 (um ano antes do seu pai) e encontra-se sepultado na Catedral da Cantuária.

domingo, 21 de outubro de 2012

Carlos VI, o Louco

Carlos VI de Valois, dito o Louco ou o Bem Amado (3 de dezembro de 1368 — 21 de outubro de 1422) foi Rei de França e chefe da Casa de Valois entre 1380 e a sua morte. A sua rainha consorte foi Isabel da Baviera com quem casou em 1385.

Primeiros anos 

Carlos nasceu em Paris, primogênito de Carlos V apelidado o Sábio, e de Joana de Bourbon. Como herdeiro da coroa ao nascer, recebeu o título de Delfim de França em 1368. Jean Froissart o descreveu nas suas crónicas como sendo criança alegre, activa e fascinada pelos grandes feitos militares.

Os quatro tios, duques de Anjou, de Berry, da Borgonha e de Bourbon, guardaram o poder até 1388; apenas o duque de Borgonha tinha algum interesse pelo bem público. Em 1380 Carlos subira ao trono por morte do pai, mas como tinha 12 anos a regência ficou entregue a um conselho chefiado pelos seus tios João de Berry, Filipe da Borgonha e Luís de Anjou.

Durante sua menoridade, o país foi assim governado em função dos interesses dos tios, que guerreavam frequentemente entre si sem ter em conta o interesse da França. Aos 20 anos, conseguiu se livrar da influência dos regentes, com a ajuda do Condestável Olivier de Clisson inimigo político dos Duques de Berry e da Borgonha. Ao mesmo tempo, cresceu o ascendente do seu irmão mais novo Luís I de Valois, que Carlos fez Duque de Orleães em 1392.

A loucura

Em 1392 uma misteriosa doença fez cair seu cabelo e unhas. E o episódio da travessia da floresta du Mans marca o início da sua loucura: Ainda febril e ligeiramente delirante, carlos VI saiu cavalgando com seu séquito. Um ruído súbito o espantou, fazendo com que ele sacasse a espada e começasse a ferir todo mundo que via. Matou quatro escudeiros antes de ser contido. No ano seguinte o acidente do bal des Ardents confirmou a doença.

Apesar de nunca ter sido particularmente astuto para a governação, fruto de sua educação desleixada, manteve uma personalidade estável até 1392, ano em que Olivier de Clisson sofreu uma tentativa de assassinato orquestrada pelo Duque João V da Bretanha.

Para defender a honra do Condestável, Carlos organizou uma expedição punitiva contra a Bretanha, mas a meio do caminho sofreu um ataque de demência psicótica, o primeiro sinal do distúrbio bipolar que o afectou até ao fim da vida. Carlos recuperou sua sanidade, mas por pouco tempo. A partir de então, as crises sucederam-se com intervalos de lucidez curtos e espaçados.

Seus ataques de comportamento estranho iam e vinha, mas tornaram-se progressivamente mais longos e piores, conforme o rei envelhecia. Ele alternava entre um estado de estupor, quando ficava inerme, e uma alegria frenética. Certa vez ele, acidentalmente, tocou fogo em si mesmo e em diversos amigos enquanto desempenhava o papel de homem selvagem, desgrenhado, num baile de máscaras, e sua vida foi salva pela iniciativa rápida de uma duquesa, que apagou o fogo debaixo da própria saia. Nos seus dias ruins, ele urinava nas roupas, quebrava a mobília e permitia que seus filhos andassem andrajosos, por pura negligência. Durante algum tempo, ele acreditou quer era feito de vidro e que quebraria se o sacudissem.

Carlos era louco demais para liderar a França na guerra, de modo que reinou a paz. Em vez disso, os membros da família real passaram as décadas seguintes matando-se uns aos outros, no meio de intrigas da corte, os diversos parentes do rei brigando para ver quem realmente mandava. Embora estivesse a princípio muito apaixonada por Carlos, e continuasse tentando ter um herdeiro com ele a despeito de seu perigoso comportamento, Isabela, a rainha francesa nascida na Alemanha, por fim iniciou um caso com o irmão do rei, o duque de Orleans. O romance continuou até que agentes do tio do rei, Filipe, o Orgulhoso, duque da Borgonha, abateram o irmão do rei nas ruas de Paris.

Quando se considerou que enlouquecera, Luís I de Valois assumiu a regência de facto, mas foi assassinado em 1407. João Sem Medo, inimigo desde 1404, tentou-se apoderar de sua pessoa, dominando o conselho do rei de 1408 a 1411, sinal da guerra civil dos Armagnacs contra os borgonheses.

Azincourt

Os últimos anos do reinado de Carlos VI foram marcados pela segunda fase da Guerra dos Cem Anos e pela invasão de França comandada por Henrique V de Inglaterra, que culminou no desastre da batalha de Azincourt. 1415 foi um ano ruim para a França:Henrique V derrotou os franceses, dizimando a nobreza francesa. As tropas inglesas ocuparam o norte do país.

Henrique V de Lancaster aproveita a loucura do rei e as querelas entre os membros do conselho da Regência, entre Armagnacs e Borgonheses, e denuncia a trégua assinada em 1396. Desembarca em 13 de agosto de 1415 perto de Harfleur com 1.400 navios e um total de 30.000 homens. Os cavaleiros franceses, agrupados ao redor da facção dos Armagnacs, vão a seu encontro para lhe cortar a estrada de Calais. Apesar da vantagem numérica (50.000 combatentes contra 15.000), os franceses sucumbem, indisciplinados. Pretendem atacar a cavalo as linhas inimigas detrás das quais estão os arqueiros ingleses. Os cavaleiros atacam os arqueiros, pesados em armaduras que pesavam 20 quilos, sem poder se deslocar direito num solo molhado pelas chuvas. No pânico, diante das flechas às centenas, muitos cavaleiros caem dos cavalos e são aprisionados. A maior parte dos prisioneiros (uns 1700) são degolados pelos arqueiros por ordem do rei inglês, que deseja exterminar a facção dos Armagnacs para reforçar seus aliados borgonheses. Os ingleses não os querem vivos, para trocar por resgate como era costume feudal. As perdas são enormes, do lado francês morrem 10 mil homens, contra 1.500 do lado inglês. Azincourt é uma das batalhas mais mortíferas da Idade Média.

Em Paris, há enorme descontentamento contra a gente de Bernardo VII que faz reinar o terror como antes o tinham feito os Borguinhões. Em 29 de maio de 1418, violento motim expulsa os Armagnacs, milhares são massacrados, o próprio conde é cortado em pedaços. O Delfim Carlos acha meios de fugir, graças ao preboste (antigo nome do comandante militar) da capital.

Com o título de regente, continuará a luta contra os ingleses à testa do que resta do partido armagnac. Paris, sem remédio, se submete de novo aos Borgonheses. Triunfam João Sem Medo e seus aliados ingleses. O duque manobra o pobre rei de França, Carlos VI, e sua mulher Isabeau. Ao mesmo tempo, inquieto com a pressão dos ingleses, o duque tenta se reconciliar com o delfim Carlos. O encontro se transforma em drama pois João Sem Medo é assassinado diante dos próprios olhos do Delfim em Montereau em 10 de setembro de 1419. O novo duque da Borgonha, Filipe o Bom, querendo vingar-se, não hesita mais em se aliar aos ingleses.

O infame Tratado de Troyes

Carlos já praticamente não tinha contacto com a realidade e estava confinado aos seus aposentos, o que deixou o país entregue às lutas entre João da Borgonha e o Conde Bernardo de Armagnac. O poderoso duque da Borgonha, João Sem Medo, e o herdeiro do trono, o delfim Carlos, se encontraram em 10 de setembro de 1419 sobre uma ponte que atravessa o rio Yonne, em Montereau. Ambos desejavam vencer os ingleses, que dominavam a França depois de sua vitória em Azincourt e já tinham ocupado o ducado da Normandia. João era o chefe do Partido borgonhês. O delfim, chefe do partido armagnac. Depois de sangrentas escaramuças, armagnacs e borguinhões pareciam dispostos a dar fim a sua rivalidade que ameaçava arruinar a monarquia dos Valois, em benefício do rei Henrique V da Inglaterra. Em 19 de setembro um Te Deum em Paris celebra sua reconciliação. Mas os companheiros do delfim guardam rancor pelo duque, pelo assassinato de Luís I de Valois, duque de Orleães, doze anos antes. Um deles ataca João Sem Medo com um machado, na própria presença do delfim. O assassinato reaviva a querela entre os Armagnacs e os Borguinhões, prejudicando a França, e permitindo aos ingleses negociar o infame tratado de Troyes com Isabeau da Baviera e seu marido, o infeliz rei louco. Em 1420 Carlos foi trazido a público para assinar o Tratado de Troyes que deserdava o Delfim Carlos, seu filho putativo, a favor de Henrique V. Morreu dois anos depois e foi sucedido por Carlos VII apenas dada a intervenção de Joana de Arc.

Pelo Tratado de Troyes acertou-se o casamento de Henrique V com Catarina de Valois, filha de Carlos VI e Isabel, e a subida do casal ao trono por morte de Carlos VI, sem contar com o Delfim Carlos. Antes, desde junho de 1419, o delfim escapara de Paris para Bourges, onde convocou a ajuda dos escoceses. Chegaram soldados da Escócia sob o comando do duque de Albany, do Earl ofDouglas e Sir John Stuart, lord de Darnley. Por cinco anos, forneceram ao delfim o apoio indispensável a que assumisse o trono comoCarlos VII, e resistisse aos ingleses.

Morto Carlos VI em 1422, a viúva Isabel (famosa pela ligeireza de costumes) não hesitou em colocar em dúvida a legitimidade do próprio filho, e reconheceu como rei da França o rei da Inglaterra Henrique V, com o qual tinha casado sua filha Catarina. A França passou a ter dois reis legítimos. O jovem Henrique VI deduzia sua legitimidade do Tratado de Troyes; reinava sobre Paris e o norte da França, fazendo-se representar por seu tio, João de Lancaster, duque de Bedford. Tem o apoio da Igreja, da Universidade e do povo de Paris, e é aliado ao poderoso partido borgonhês. Quanto a Carlos VII de Valois, apelidado o pequeno rei de Bourges, reina apenas sobre o centro e o sul, terra d´oc. Não tem dinheiro, nem apoio, além de alguns armagnacs e mercenários de toda sorte, seus cortesões se querelam - está a beira de renúncia, ao encontrar Joana d´Arc em 1429.

A guerra entre os ingleses e Carlos VII terminará apenas pela batalha de Castillon, perto de Bordeaux, em 17 de julho de 1453. A querela terá por final a luta entre Luís XI, filho de Carlos VII, e Carlos o Temerário, duque da Borgonha, filho de Filipe o Bom. A morte do duque em 1477 e a anexação do ducado da Borgonha ao reino de França serão o epílogo.

sábado, 20 de outubro de 2012

Henrique V

Henrique V (1386 - 31 de Agosto de 1422), foi rei de Inglaterra entre 1413 e 1422. Fez parte da dinastia de Lencastre e era filho do rei Henrique IV e Maria de Bohun.

Henrique de Monmouth (assim conhecido por ter nascido no castelo de Gales com o mesmo nome) foi criado longe da corte, uma vez que não era descendente de um pretendente à coroa. Em 1399, o seu pai revoltou-se contra o primo Ricardo II de Inglaterra, acabando por depô-lo e subir ao trono. Esta mudança conferiu um novo estatuto a Henrique, agora herdeiro da coroa e como tal Duque da Cornualha e Príncipe de Gales. Estes títulos não eram só nominais. Henrique encarregou-se desde muito cedo da administração de Gales e em 1403, com apenas 16 anos, liderou os ingleses na batalha de Shrewsbury, que pôs fim à revolta organizada por Henry Percy. Apesar de seriamente ferido em batalha, Henrique sobreviveu e continuou no terreno, lutando até 1408 contra Owain Glyndwr, outro rebelde galês. A partir de 1410, Henrique assumiu o controle da administração, devido ao estado de saúde do pai, cada vez mais débil.

Finalmente em 20 de Março de 1413, Henrique de Monmouth sucede a seu pai como Henrique V. As suas primeiras medidas foram no sentido de pacificar os conflitos internos derivados da violenta subida ao poder do seu pai. Foram emitidas amnistias e reinstituídos como herdeiros os filhos de homens que se opuseram a Henrique IV e morreram por isso. Livre de pressões internas, Henrique dedicou-se à política externa, nomeadamente à sua pretensão à coroa de França e à resolução da guerra dos cem anos que durava já desde 1337. A campanha de 1415 foi marcada pelo sucesso da batalha de Azincourt (25 de Outubro), onde as suas reduzidas tropas derrotaram o grosso do exército francês e dos seus aliados. Em 1417, Henrique renova as hostilidades e conquista a Normandia, enquanto os franceses se encontravam divididos pelas disputas entre Armagnacs e borgonheses. Ruão cai em Janeiro de 1419 e em agosto Henrique acampa com o seu exército sob as muralhas de Paris. Em Setembro João o Temerário, Duque da Borgonha é assassinado e a capital perde qualquer esperança de salvamento. Depois de seis longos meses de negociações, Henrique é declarado herdeiro e regente de França pelo tratado de Troyes e casa com a princesa Catarina de Valois a 2 de Junho de 1420.

Tudo parecia apontar para a união pessoal com a França e Henrique retirou-se, no auge do seu poder, para Inglaterra. A visita a casa durou pouco tempo. Em 1421, o seu irmão Tomás, Duque de Clarence, morreu na batalha de Baugé e obrigou Henrique a regressar ao teatro de operações. O Inverno passado em campanha, no cerco de Meaux, enfraqueceu-lhe a saúde e o rei acabou por morrer de disenteria em Agosto de 1422. O corpo foi transladado para Londres e encontra-se sepultado na Abadia de Westminster.

Henrique V foi sucedido pelo filho homónimo, então um bebé de oito meses, longe de representar o líder forte que se desejava para manter os princípios do tratado de Troyes. Assim, quando Carlos VI de França morreu poucos meses depois, o seu filho ficou à vontade para ignorar os acordos e, apesar de deserdado, reclamar a coroa francesa. Só em 1801 os reis ingleses abdicaram dessa pretensão.