quarta-feira, 22 de maio de 2013

Primeira Circunnavegação

Mapa da viagem de Fernão de Magalhães 
à volta do mundo (1519-1522).
A partir de 1516, vários portugueses descontentes com a coroa portuguesa reuniram-se Sevilha, ao serviço do recém coroado Carlos I de Espanha. Entre eles estavam os navegadores Diogo e Duarte Barbosa, Estevão Gomes, João Serrão, Fernão de Magalhães, os cartógrafos Jorge Reinel e Diogo Ribeiro, os cosmógrafos Francisco e Rui Faleiro e o mercador flamengo Cristóvão de Haro.

Fernão de Magalhães, que navegara na Índia ao serviço de D. Manuel I até 1512, quando da chegada às Molucas, e mantinha contacto com Francisco Serrão aí residente, desenvolveu a teoria de que as ilhas estariam na zona de influência espanhola de Tordesilhas e que havia uma passagem no Atlântico Sul, sustentado em estudos dos irmãos Faleiro. Ciente dos esforços da coroa espanhola para encontrar uma rota para a Índia navegando para oeste, apresentou o projeto de aí chegar.

A coroa espanhola e Cristovão de Haro financiaram a expedição de Fernão de Magalhães. A 10 de agosto de 1519 partiu de Sevilha a frota de cinco navios - a caravela Trinidad como navio-almirante sob o comando de Magalhães, e as naus San Antonio, Concepción, Santiago e Victoria com uma tripulação de cerca de 237 homens de várias nações, com objetivo de chegar às ilhas Molucas (arquipélago que faz parte da Indonésia) por ocidente, tentando recuperá-las para a esfera econômica e política da Espanha. A frota navegou para sul, evitando o território Português no Brasil, tornando-se a primeira a chegar à Tierra del Fuego, no extremo das Américas.

**Victoria, o único navio da frota de Magalhães a ter completado a circumnavegação. Detalhe do mapa "Maris Pacifici", o primeiro dedicado ao Pacífico, Ortelius, 1589).

Victoria, o único navio
da frota de Magalhães a ter completado
a circumnavegação.
Em 21 de Outubro, a partir do cabo Virgenes, começou uma árdua viagem de 600 km através do estreito nomeado então de todos os Santos, actual estreito de Magalhães. Em 28 de Novembro três navios entraram no oceano Pacífico - então chamado "mar Pacífico", devido à sua aparente quietude. A expedição conseguiu atravessar o Pacífico. Magalhães morreu em batalha em Mactan, próximo de Cebu, nas Filipinas, deixando ao espanhol Juan Sebastián Elcano a tarefa de completar a viagem, chegando às Ilhas das Especiarias em 1521. Em 6 de setembro de 1522 a Victoria regressou a Espanha com apenas dezoito membros da tripulação inicial, completando assim a primeira circum-navegação do mundo. Dos homens que partiram nos cinco navios, apenas 18 completaram a circum-navegação e conseguiram voltar para a Espanha em 1522 com Elcano. Dezessete outros regressaram mais tarde: doze, capturados pelos portugueses em Cabo Verde, entre 1525-1527, e cinco sobreviventes da Trinidad. Antonio Pigafetta, um acadêmico veneziano que insistira embarcar e se tornou um fiel assistente de Magalhães, escreveu um diário detalhado que se tornou a principal fonte do que hoje se sabe sobre esta viagem.

Esta viagem à volta do mundo deu à Espanha o conhecimento valioso do mundo e seus oceanos, que mais tarde ajudou na exploração e colonização das Filipinas. Embora esta não fosse uma alternativa viável para concorrer com a rota do Cabo portuguesa em torno da África (o estreito de Magalhães era muito distante para sul, e o oceano Pacífico demasiado vasto para abranger numa única viagem a partir de Espanha) sucessivas expedições espanholas usaram esta informação para viajar da costa mexicana através de Guam para Manila.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Guerras Religiosas na França - Part I

As Guerras religiosas na França constituem uma série de oito conflitos que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI, opondo católicos e protestantes, marcando um período de declínio do país.

Períodos de conflitos 

As guerras religiosas ocorrem entre 1562 e a promulgação do Édito de Nantes (1599), entrecortadas por curtos períodos de paz, conforme segue:

Primeira: 1562–1563
Segunda: 1567–1568
Terceira: 1568-1570
Quarta: 1572–1573
Quinta: 1574–1576
Sexta: 1576–1577
Sétima: 1579–1580
Oitava: 1585–1598

Todavia, ainda haveria prolongamentos desse conflitos, ao longo dos séculos XVII (o Cerco de la Rochelle, entre 1627 e 1628, e novas perseguições aos protestantes, após a revogação do Édito de Nantes, em 1685) e XVIII (Guerra dos Camisards), até o Édito de tolerância (1787), sob Louis XVI, considerado como um marco do fim dos confrontos.

Antecedentes

Herique II, de França
Nessa época as relações internacionais na Europa Ocidental eram simples: todo mundo odiava seu vizinho. A Espanha se opunha à França, que se opunha à Inglaterra, que se opunha à Escócia. Isso fazia com que os países alternassem seus aliados, cujos monarcas casavam ocasionalmente uns com os outros. O rei Filipe II, da Espanha, era casado com a rainha Mary Tudor, na Inglaterra, enquanto o príncipe Francisco, da França, que logo se tornaria rei, era casado com Mary, rainha da Escócia. Todos esses monarcas eram católicos, embora a população da Grã-Bretanha fosse constituída principalmente de protestantes.

O rei francês na época, Henrique II, odiava a "escória luterana". Coroado em 1547, com a idade de 28 anos, ele tinha a força e a vontade política para manter na linha sua minoria no Parlamento. Com um rei jovem e sadio, pai de quatro filhos e três filhas, o futuro da dinastia de Henrique Valois parecia seguro, mas então o rei teve a órbita ocular perfurada num torneio de armas em 1559. Depois de penar em agonia por diversos dias, o rei Henrique morreu, deixando a França nas mãos de seu filho Francisco, de 15 anos de idade.

A Primeira Guerra 

Como tantos outros monarcas, o rei Francisco II dependia da família de sua esposa para ajudá-lo a se manter no poder. Sua rainha, Mary Stuart, da Escócia, era ligada pelo lado da mãe à família Guise, de poderosos católicos franceses.

Em 1560, os protestantes franceses conceberam um plano para matar tantos Guise quanto fosse possível, e sequestrar o rei, a fim de forçá-lo a expulsar os membros restantes da família. Os huguenotes estavam tao orgulhosos de seu plano que contaram a todo mundo o que iam fazer. Quando o golpe foi deslanchado, os Guise estavam preparados. Os conspiradores foram repelidos e depois caçados, enforcados e esquartejados, às vezes depois de julgados. O rei e sua corte assistiram à decapitação de 52 revoltosos no pátio do castelo.

Catarina de Médici
Homem sempre doentio, Francisco morreu em dezembro de 1560, depois de um ano no trono. Seu irmão de 10 anos de idade, o quieto, melancólico Carlos IX, subiu ao trono, mas Catarina de Médici, sua mãe e esposa antes obediente do rei Henrique, ficou exercendo o poder real, como regente. Catarina era filha de Lourenço de Médici, o frio e ardiloso governante de Florença, na Renascença, a quem Maquiavel dedicara seu livro O Príncipe, mas ela não aprendeu nada com seu mestre. Durante as décadas em que dominou a política, Catarina elaborou uma série de planos inábeis e acordos fracos que, constantemente, foram tornando a situação cada vez pior. No lado positivo, Catarina estabeleceu tendências, introduzindo, em uma nação relativamente antiquada, novidades italianas, como o garfo, o rapé, o brócolis, o silhão, os lenços de mão e as gavetas para roupas de senhoras.

A fim de obter apoio entre as proeminentes famílias protestantes, especialmente entre os Bourbon, e contrabalançar o crescente poder da família Guise, Catarina legalizou o culto protestante, o que aborreceu a maioria católica do país, mas manteve os protestantes em rédeas curtas, o que aborreceu a minoria deles. 

As guerras começaram quando um outro Francisco, o duque de Guise, atravessava a cidade de Vassy, e parou na igreja local para assistir à missa. Os protestantes estavam orando e cantando num celeiro próximo, que lhes servia de templo, porque a Coroa proibia os protestantes de construírem igrejas verdadeiras. Surgiu uma escaramuça entre os paroquianos rivais, atraindo o séquito do duque. A luta cresceu de proporção, e finalmente os católicos terminaram incendiando o celeiro dos protestantes e matando quantos puderem alcançar.

Em pouco tempo os franceses de ambas as religiões estavam fortificando suas cidades e trazendo apressadamente milícias para suas regiões. Os exércitos sectários lutaram em diversas batalhas encarniçadas, mas por fim o duque de Guise foi assassinado, e o comandante dos huguenotes, Luís de Bourbon, príncipe de Conde, morreu no campo de batalha, deixando os lados se debatendo, sem liderança e prontos para negociar. Gaspar de Coligny, um almirante que servira com Conde, surgiu como novo líder dos protestantes. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Guerras Religiosas na França - Part II

As Guerras religiosas na França constituem uma série de oito conflitos que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI, opondo católicos e protestantes, marcando um período de declínio do país.

Períodos de conflitos 

As guerras religiosas ocorrem entre 1562 e a promulgação do Édito de Nantes (1599), entrecortadas por curtos períodos de paz, conforme segue:

Primeira: 1562–1563
Segunda: 1567–1568
Terceira: 1568-1570
Quarta: 1572–1573
Quinta: 1574–1576
Sexta: 1576–1577
Sétima: 1579–1580

Oitava: 1585–1598

A Segunda Guerra 

A rivalidade entre a França e a Espanha se intensificara em 1494, quando o herdeiro do trono espanhol casou com a herdeira da casa de Borgonha, unindo a Espanha a todos os territórios que haviam trazido tantos problemas aos reis da França durante a Guerra dos Cem Anos, e que compreendia a Borgonha, Flandes e a Holanda. Isso colocou os exércitos espanhóis cercando a França por todos os lados. Então os calvinistas da Holanda se revoltaram contra o domínio espanhol em 1567, empurrando a Espanha e a França para uma frente comum contra o protestantismo.

Com os huguenotes irritados, Catarina de Médici escolheu a hora errada de viajar para Baione e visitar sua filha Elizabeth, que se casara recentemente com o rei viúvo da Espanha, Filipe II. Para os huguenotes, essa reunião de família parecia uma conspiração, desencadeando o boato entre os huguenotes de que o novo e grande exército espanhol que estava indo abafar a revolta na Holanda na verdade estava indo ajudar os católicos franceses e erradicar o protestantismo no país.

Os huguenotes lançaram um ataque preventivo, tentando sequestrar o rei do poder dos Guise e mantê-lo entre os protestantes, mas o plano vazou e a corte chegou ao destino com segurança. Seis mil soldados huguenotes acamparam nas cercanias de Paris, efetivo pequeno demais para fazer cerco à cidade, mas no Dia de Saint-Denis derrotaram 18 mil homens do exército real que fora expulsá-los do local. Mesmo assim, quando as forças do rei aumentaram seu efetivo para 60 mil, os huguenotes se retiraram e negociaram um cessar fogo.

domingo, 19 de maio de 2013

Guerras Religiosas na França - Part III

As Guerras religiosas na França constituem uma série de oito conflitos que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI, opondo católicos e protestantes, marcando um período de declínio do país.

Períodos de conflitos 

As guerras religiosas ocorrem entre 1562 e a promulgação do Édito de Nantes (1599), entrecortadas por curtos períodos de paz, conforme segue:

Primeira: 1562–1563
Segunda: 1567–1568
Terceira: 1568-1570
Quarta: 1572–1573
Quinta: 1574–1576
Sexta: 1576–1577
Sétima: 1579–1580
Oitava: 1585–1598

A Terceira Guerra 

Dentro de poucos meses, as forças reais tentaram se infiltrar e surpreender os líderes protestantes na área deles, mas os huguenotes escaparam para o norte, onde poderiam fazer uma ligação com holandeses e ingleses que os apoiavam. Os Guise fizeram contato com a Espanha e partiram para eliminar os bastiões protestantes no sul da França. Embora os protestantes houvessem sido derrotados fragorosamente na guerra que se seguiu, a Coroa não tinha recursos de continuar com as ações bélicas. Foi selada a paz em 1570 e os huguenotes tiveram permissão para fortificar e guarnecer quatro cidades como refúgios seguros, no caso de os católicos renovarem a agressão.

O Massacre do Dia de São Bartolomeu

Henrique de Navarra
Tentando ajeitas as coisa, Catarina de Médici casou sua filha Margaret com o nobre de mais alta estirpe entre os huguenotes, Henrique, chefe da casa de Bourbon e rei do pequeno reino de Navarra, nos Pirineus. Catarina também tentou trazer huguenotes para seu governo, o que naturalmente enfureceu os católicos.

Quando todo mundo estava reunido em Paris para o casamento de Margaret, alguém tentou assassinar o líder militar dos huguenotes, Gaspard de Coligny. Quando ele percorria uma rua, um franco-atirador baleou-o de uma janela. Ninguém sabe realmente quem planejou o atentado, mas a história tem tradicionalmente culpado Catarina. O ferimento não foi sério, e não fez mais do que levantar a fúria dos protestantes.

Massacre do Dia de São Bartolomeu
Embora o rei Carlos e seu conselho não tivesse nada a ver com a tentativa de assassinato, Catarina lhes explicou que agora os huguenotes iriam retaliar, tornando um ataque preventivo a única estratégia de sobrevivência possível. Na véspera do Dia de São Bartolomeu, 24 de agosto de 1572, Guise e seus homens irromperam na casa de Coligny e o assassinaram no seu leito, doente enquanto outros esquadrões da morte saíam à caça de protestantes. Com toda a probabilidade, Catarina só queria decapitar a causa huguenote matando os líderes, mas Paris explodiu em ódio contra os protestantes. Multidões por toda a cidade saíram caçando qualquer huguenote que podiam, matando entre 2 mil a 10 mil deles, por que meios tivessem à mão 

Adultos foram enforcados, espancados, retalhados e esfaqueados; crianças foram jogadas pelas janelas ou no rio. Durante as semanas que se seguiram, os protestantes foram massacrados em outras cidades por toda a França, elevando em dez vezes o número de mortos, chegando às vizinhas de 50 mil.

O líder dos huguenotes e noivo, Henrique de Navarra, um Bourbon, sobreviveu apenas se convertendo ao catolicismo na última hora. Foi levado para dentro do palácio, para ser vigiado de perto, seus movimentos ficando restritos. 

O Massacre do Dia de São Bartolomeu horrorizou a Europa. Até mesmo Ivã, o Terrível, da Rússia, condenou-o. O acontecimento mudou a natureza das guerras religiosas na França, que passaram de uma luta de bandos a uma guerra de extermínio.

A história foi relatada por Alexandre Dumas em sua obra A Rainha Margot, um romance de 1845, historicamente acurado, apesar de Dumas ter inserido tons de romantismo e aventuras em seu texto. O romance de Dumas foi adaptado ao cinema em 1994, em A Rainha Margot ("A Rainha Margot"), de Patrice Chéreau.

sábado, 18 de maio de 2013

Guerras Religiosas na França - Part IV

As Guerras religiosas na França constituem uma série de oito conflitos que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI, opondo católicos e protestantes, marcando um período de declínio do país.

Períodos de conflitos 

As guerras religiosas ocorrem entre 1562 e a promulgação do Édito de Nantes (1599), entrecortadas por curtos períodos de paz, conforme segue:

Primeira: 1562–1563
Segunda: 1567–1568
Terceira: 1568-1570
Quarta: 1572–1573
Quinta: 1574–1576
Sexta: 1576–1577
Sétima: 1579–1580

Oitava: 1585–1598

Quarta Guerra

Quando se reiniciou a guerra, o irmão mais moço do rei, Henrique, liderou o exército católico na conquista do bastião protestante de La Rochelle. Um feroz cerco estendeu-se por meses, de 1572 até o ano seguinte. Sapadores tentaram minar as fortificações e explodi-las com barris de pólvora, enquanto a artilharia bombardeava as muralhas, sem eficácia. Estava parecendo que as tropas fora das muralhas ficariam sem comida e munição antes que isso acontecesse com os defensores do bastião. Então o príncipe Henrique foi eleito rei da Polônia, o que lhe deu a desculpa de levantar o sítio sem passar vergonha. 

Quinta, Sexta e Sétima Guerra

O rei Carlos vinha sendo atormentado por culpa desde que autorizara o Massacre do Dia de São Bartolomeu, e sua saúde se deteriorou. Quando morreu, em 1574, com a idade de 23 anos, o trono passou para seu irmão, o rei Henrique da Polônia, de 22 anos. Henrique escapuliu da Polônia com o tesouro nacional escondido no comboio de bagagens e foi para Paris, aceitar a promoção.

Henrique III
O novo rei, Henrique III, era o favorito de Catarina de Médici e seu filho mais inteligente. Era um católico devoto, que gostava de se vestir de mulher, e que às vezes se apresentava nas funções oficiais em trajes femininos. Henrique tinha um círculo de jovens bem-apessoados, chamados de Queridinhos (Mignons). Tinha uma coleção de cãezinhos e se escondia das trovoadas no sótão. A mãe tentou, sem sucesso, atraí-lo para a heterossexualidade oferecendo-lhe criadas nuas em festas especiais que ela dava para diverti-lo, mas o truque não funcionou.

Entretanto, mais perigoso ainda era a tendência intermitente do rei para o fanatismo católico, quando procurava penitenciar-se das excentricidades sexuais. Nessas ocasiões, Henrique punha em perigo sua saúde com jejuns e mortificações extremadas. Finalmente, Catarina mandou matar, num beco, o amigo do rei que o encorajava a adotar esses rituais e que ela suspeitava ser um agente espanhol.

Da mesma maneira que acontecia com a maioria dos governantes que se defrontavam com a guerra civil, por toda a história, tudo que o rei Henrique fazia parecia se voltar contra ele. Quando restaurou a liberdade religiosa para os huguenotes, Henrique de Navarra aproveitou-se desse novo clima de tolerância da lei para fugir da corte e se converter ao protestantismo, ao se pôr em segurança e fora de alcance. Nesse ínterim Henrique de Guise, enfurecido com a fraqueza do rei e com o apoio espanhol, formou a Liga Católica, independente.

O rei Henrique III estava ficando sem dinheiro, de modo que convocou o Parlamento na esperança de obter dele um aumento de impostos. O Parlamento recusou a proposta, mas o rei conseguiu reunir um número suficiente de soldados para algumas pequenas campanhas no vale do rio Loire.

Henriques Demais

Como o rei atual era assumidamente gay, o próximo soberano provavelmente não seria um rebento seu. A sucessão apontava para o mais jovem dos irmãos Valois, Francisco, mas em 1584, ele morreu de febre e enquanto conspirava contra os protestantes na Holanda. Sem outros descendentes masculinos do rei Henrique II, a lei recuou, até encontrar outra linhagem masculina direta, vinda de um rei anterior. Quando seguiram esse novo ramo, visando encontrar o descendente mais velho, os genealogistas reais viram que o próximo na linha de sucessão para o trono na França era o cunhado do rei, Henrique de Navarra, da família Bourbon e líder dos huguenotes.

Então começou a Guerra dos Três Henriques, no qual o rei Henrique III e Henrique de Guise tentaram forçar Henrique de Navarra a renunciar ao seu direito de sucessão. Como o que estava em jogo era o trono, as batalhas foram particularmente sangrentas. Dois mil católicos foram mortos na Batalha de Coutras, outros 6 mil na Batalha de Ivry. As perdas dos protestantes foram comparáveis a essas, e nenhum dos lados obteve vantagem.

Contra a Liga Católica

A Liga Católica odiava o rei Henrique por ele não esmagar os huguenotes. Para seus membros, um católico moderado não era melhor do que um protestante. A liga agitou os cidadãos parisienses, que levantaram barricadas e expulsaram o rei Henrique III da cidade. Em seu exílio rural, o rei foi forçado a convocar o Parlamento para se aconselhar sobre sua sucessão. Quando o Parlamento sugeriu um herdeiro que eram obviamente, um títere dos Guise, o rei decidiu resolver seu problema com aquela família de uma vez por todas.

Dois dias antes do Natal, o rei Henrique III convidou Henrique de Guise para uma rápida conversa, mas quando seu convidado entrou na sala, as portas foram subitamente fechadas com violência e aferrolhadas atrás dele. Soldados invadiram correndo o recinto; Guise desembainhou a espada e lutou bravamente, mas mesmo assim os homens do rei o abateram. Seu irmão, o arcebispo católico, que também visitava o rei, foi morto na manhã do dia seguinte. Foram esquartejados e os restos lançados numa lareira flamejante. O rei então se aliou aos Bourbon contra a Liga Católica.

Mortes - Catarina e Henrique III

Em 5 de janeiro de 1589, Catarina morreu com sessenta de nove anos de idade, provavelmente de pleurisia. L'Estoile escreveu: "pessoas próximas a ela acreditavam que sua vida foi encurtada pelo descontentamento com as ações de seu filho." Ele acrescentou que ela não tinha morrido mais cedo quanto poderia dado que ela recebia tanta consideração quanto uma cabra morta. 

Seu filho teve o mesmo destino logo depois. Em julho daquele ano, um frade dominicano, enraivecido com o rei Henrique por ele ter traído o catolicismo, esfaqueou-o no estômago. Depois da morte do rei, lenta e demorada, por hemorragia e infecção, o protestante Henrique de Navarra tornou-se rei da França, acabando com quase três séculos de domínio Valois e iniciando a dinastia Bourbon.

"Eu governo com minha bunda na sela e a pistola na mão", declarou Henrique IV, e seguiu para reconquistar sua capital, que estava nas mãos da Liga Católica.

Sítio a París

O sítio a Paris, que começou em maio de 1590, foi brutal. Mês após mês, os 220 mil residentes da maior cidade da Europa ficaram trancados dentro dela com suprimentos que diminuíam sempre. Conforme passou o tempo, os cachorros, gatos e ratos desapareceram das ruas. 

Então a Liga Católica convocou o Parlamento em Paris para escolher um rei católico que se opusesse a Henrique de Navarra, mas, quando os espanhóis ofereceram sua própria princesa, filha de uma irmã da família Valois, muitos franceses ficaram estarrecidos. Começava a surgir neles a ideia de que ser francês era provavelmente mais importante do que ser católico. Talvez um rei Bourbon fosse melhor do que deixar que a França se tornasse um satélite da Espanha. 

Subitamente, em 1593, Henrique de Navarra, que chefiara os exércitos protestantes em muitas refregas duras, anunciou que, bem, se isso era tão importante para eles, que ele seguiria em frente e se converteria ao catolicismo. Não queria causar problemas. "Paris bem vale uma missa" foi o boato que correu como sua explicação.

Isso clareou o caminho para um rei ser bem-aceito e consagrado, e, antes que qualquer um pudesse aparecer com novas objeções, a paz foi selada. Em 1598, o rei Henrique IV publicou o Édito de Nantes, declarando a tolerância para com todas as crenças cristãs. Sua nova dinastia, a dos Bourbon, queria começar a governar a partir de uma página em branco. "A lembrança de tudo que um lado infligiu ao outro... durante o precedente período de perturbações fica apagada e esquecida, como se tais coisas não houvessem acontecido". Ou nas palavras do Rei de Castelo do Pântano, de Monty Python: "Não vamos ficar reclamando e discutindo sobre quem matou quem".

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Guerra da Sucessão Portuguesa

A Guerra da Sucessão Portuguesa foi travada de 1580 a 1583 durante a disputa do trono português entre Felipe II e António de Portugal, Prior do Crato, na sequência da Crise de sucessão de 1580. Foi vencida por Felipe II, iniciando a União Ibérica sob a dinastia Filipina em Portugal.

Interlúdio - Crise da Sucessão

Cardeal rei
D. Henrique
A morte do jovem rei de Portugal D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir levou a uma crise de sucessão já que o primeiro não teria deixado descendência pela sua tenra idade. Pela proximidade de parentesco, coube a governação ao cardeal D. Henrique, aclamado Rei de Portugal a 28 de Agosto de 1578. 

A notícia da derrota de Alcácer-Quibir foi levada ao cardeal, então no Mosteiro de Alcobaça, pelo provincial da Companhia de Jesus e o Dr. Jorge Serrão. O cardeal, encarregado da regência do reino por proximidade de parentesco, convocou as Cortes de Lisboa de 1579 para estudar a situação decorrente da sua avançada idade e vínculo religioso. Não sendo casado e não tendo herdeiros, a sua regência seria meramente provisória.

Pretensão à Coroa

Pelas leis da época, sucederia ao Rei o seu parente mais próximo, na tentativa de preservar o Sangue Real na administração do Reino; em caso de parentes de igual proximidade, a preferência seria dada aos de sexo masculino. A verificar-se a concorrência de vários homens em igual grau de parentesco, seria preferido o mais velho. 

Assim, os candidatos ao Trono de Portugal eram (pela ordem da linha da sucessão): 

1. O Cardeal-Rei D. Henrique I 
2. Rainúncio I Farnésio, Duque de Parma  
3. Catarina, Duquesa de Bragança  
4. Filipe II de Espanha 
5. Emanuel Felisberto de Saboia
6. João I, Duque de Bragança  

Havia ainda: 
D. António, o Prior do Crato, afastado por ser tido como ilegítimo, se não o fosse estaria mesmo antes do cardeal D. Henrique na linha de sucessão

Morte do Cardeal

O Rei-Cardeal morreu em 1580, durante as Cortes de Almeirim, deixando uma Junta de cinco governadores. E destes cinco, apenas um, D. João Telo, era contrário a Filipe II de Espanha. O cardeal já havia manifestado, entretanto, a sua intenção de nomear Filipe II como sucessor ao trono, mediante um acordo que traria benefícios ao reino. 

Pensa-se que muitas das figuras favoráveis  D. Filipe tenham sido subornadas de alguma forma pelo rei castelhano, que sabia dos temores dos mais ricos em perder a posição privilegiada na corte. O reino manifestava assim uma avareza que renunciava à independência a favor de bens materiais e títulos de poder.

Guerra da Sucessão Portuguesa

D. António, Prior do Crato
Durante a preparação defensiva do castelo de Santarém contra uma eventual ofensiva castelhana, o povo aclamou D. António como Rei de Portugal. Este, surpreendido, precavia-se contra a revolta da nobreza e do clero, pedindo para limitarem a aclamação a apenas Regedor e defensor do Reino. A situação era melindrosa, já que D. António se antecipava à decisão dos governadores nomeados pelo cardeal D. Henrique que tinham por missão designar, de entre os vários netos de D. Manuel I, o herdeiro legítimo da coroa. 

A 24 de Julho seria coroado e governaria no continente durante cerca de vinte dias, até ter sido derrotado na Batalha de Alcântara pelos exércitos espanhóis comandados pelo Duque de Alba em 25 de agosto. A batalha terminou com uma vitória decisiva dos Habsburgos, tanto em terra como no mar. Dois dias depois, o duque de Alba capturou Lisboa.

No início de 1581, D. António fugiu para a França em busca de apoio e, como exércitos de Filipe ainda não tinham ocupado os Açores, aí se estabeleceu com um número de aventureiros franceses sob comando de Filippo Strozzi, um exilado florentino que deixou o cargo de coronel do exército ao serviço da França. As razões desta demissão prendem-se com a necessidade de evitar o envolvimento oficial da França na contenda luso-castelhana, já que Catarina de Medicis pretendia seguir uma política de duplicidade que ao mesmo tempo que mantinha a paz entre a França e Castela, tentava minar o poderio castelhano.

Assim, foi como privado, oficialmente como mercenário, embora com a bênção da rainha-mãe de França, que Fillipo Strozzi partiu em Junho de 1582 à frente de uma força luso-francesa, embora com participação minoritária portuguesa, em socorro do partido antonino acantonado na Terceira. As forças portuguesas eram comandadas por D. Francisco de Portugal, o 3.º conde de Vimioso.

A 25 de Julho de 1581, na ilha Terceira as forças leais a D. António venceram a Batalha da Salga. Mas um ano depois foi completamente derrotado no mar por uma armada Luso-Espanhola comandada por D. Álvaro de Bazán, na Batalha Naval de Vila Franca no dia 26 de julho de 1582. A 27 de Julho de 1583 no Desembarque da Baía das Mós a força luso-castelhana pôs termo à resistência da Terceira ao domínio de Filipe II de Castela.

Filipe II, de Espanha
I de Portugal
António dedicou toda a sua vida a tentar recuperar o trono. Tentou ainda o desembarque numa expedição de Inglesa, a Contra armada inglesa sob o comando de Sir Francis Drakee Sir John Norreys, às costas de Espanha e Portugal, mas a expedição falhou e a tentativa António para governar Portugal a partir de Ilha Terceira, nos Açores (onde chegou a cunhar moeda) chegou ao fim em 1583. Começava, assim, a dinastia filipina, com Filipe II de Espanha, I de Portugal.  

D. António morreu em 1595, cessando assim qualquer hipótese de prolongar a dinastia de Avis. Só 60 anos depois a independência seria restaurada por D. João, duque de Bragança, aclamado D. João IV, Rei de Portugal.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Guerra dos 80 Anos

A Guerra dos 80 anos ou Revolta Holandesa de 1568 a 1648, foi a guerra de secessão na qual o território englobando aquilo que é hoje os Países Baixos se tornou um país independente frente à Espanha. Durante esta guerra, a República Holandesa tornou-se uma potência mundial por um curto período histórico, com grande poder naval, e beneficiou de um crescimento econômico, científico e cultural sem precedentes.

Os Países Baixos pertenciam ao império espanhol, mas o Conselho de Regência de Filipe II rompeu com os nobres locais, que foram excluídos do governo. Altos impostos, desemprego e temores da perseguição católica contra os calvinistas criaram uma perigosa oposição, esmagada pelo duque de Alba em 1567 com um reino de terror e pesada tributação. 

Seguiu-se uma revolta liberal iniciada por Guilherme, o Taciturno, que evitou batalhas campais com as forças espanholas, explorando estrategicamente seu conhecimento da região, salvando cidades sitiadas como Leiden (1573-1574) e abrindo diques que inundaram a zona rural. O saque de Antuérpia (1576) levou a uma união temporária de todos os Países Baixos na pacificação de Gante. Os excessos calvinistas logo levaram as províncias do sul a formarem a União de Atrecht (1579) e a fazer as pazes com a Espanha. As províncias do norte formaram a União de Utrecht e a guerra tornou-se uma luta religiosa pela independência. 

Guilherme defendeu-se com ajuda estrangeira, até ser assassinado em 1584, quando a liderança passou para Maurício de Nassau e o político Van Oldenbarneveldt. As Províncias Unidas salvaram-se pelo compromisso de guerra da Espanha com a França, Inglaterra e Turquia. Um armistício (1609) foi seguido pelo reconhecimento da plena independência dos Países Baixos no Tratado de Westfália  em 1648.

Antecedentes da Guerra

Nem todas as províncias neerlandesas decidiram separar-se da Espanha ao mesmo tempo. Algumas, sobretudo aquelas no que é hoje a Bélgica, nunca o fizeram. 

Carlos V, Sacro Império Romano-Germânico, nasceu em Gante em 1500 e foi educado nos Países Baixos. Ele abdicou em 1556 a favor do seu filho Filipe II de Espanha, que estava sobretudo interessado no lado espanhol do Império. O Calvinismo tinha-se tornado influente nos Países Baixos. Em 1566, muitos calvinistas atacaram igrejas para destruir estátuas e imagens de santos católicos, que eles consideravam heréticas. 

Filipe II envia em reacção o Duque de Alba, que tinha a alcunha do Duque de Ferro, com o seu exército para os Países Baixos. 

A Guerra

Gilherme, o Taciturno
Em 1568 Guilherme I de Orange (Guilherme, o Taciturno), governador das províncias da Holanda, Zelândia e Utrecht, tentou afastar o altamente impopular Duque de Alba de Bruxelas. Ele não viu nisto um acto de traição para com Filipe II, e esta perspectiva é reflectida naquilo que é hoje o Hino Nacional dos Países Baixos (o Wilhelmus), no qual as últimas linhas da primeira estrofe dizem: de koning van Spanje heb ik altijd geëerd (Sempre honrei o Rei de Espanha). 

Guilherme recebeu pouco apoio e teve de fugir. Os seus co-conspiradores, o Conde de Egmont e o Conde de Horne, permaneceram e Alba mandou decapitá-los. Alba também introduziu um imposto não aprovado.

Uniões de Atrecht e Utrecht

A 6 de Janeiro de 1579, estimulados pelo novo governador espanhol Alexander Farnese, Duque de Parma, os estados do sul (situados hoje na sua maioria na Bélgica), assinaram a União de Atrecht expressando a sua lealdade ao Rei espanhol. Nos 10 dez anos seguintes ele restabeleceria a religião católica na maior parte desta área. 

A 23 de Janeiro de 1579, em resposta, Guilherme uniu os estados protestantes dos Países Baixos, Zeeland, Utrecht, Guéldria e a província de Groninga na União de Utrecht. Esta União levaria mais tarde (1581) à independência de Espanha, formando as República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos (também conhecidas como os Estados Gerais ou por vezes como a República Holandesa) 

Assistência do exterior

Em 1581, os espanhóis enviaram um exército para tentar recapturar as Províncias Unidas, com algum sucesso inicial, e a 10 de Julho de 1584, Guilherme foi assassinado. Com a guerra aberta a decorrer, as Províncias Unidas pediram ajuda à França e Inglaterra, tendo mesmo oferecido a monarquia dos Países Baixos em contrapartida, o que ambas as nações declinaram. 

A Inglaterra já apoiava os holandeses não-oficialmente havia já anos, e decidiu agora intervir directamente. Em 1585, de acordo com o Tratado de Nonsuch, Elizabeth I enviou Robert Dudley, conde de Leicester, para prestar assistência, com aproximadamente cinco a seis mil cavalos. 

Maurício de Orange
O filho de Guilherme, Maurício de Nassau, em breve contornou o conde e tomou conta dos exércitos em 1587, pelo que Leicester regressou à Inglaterra. A presença dos ingleses, que estavam para ficar até 1604, foi uma das razões que levariam ao envio da Armada Invencível contra a Inglaterra em 1588. 

Sob o comando de Maurício, grande parte da área dos estados do sul revoltaram-se contra Espanha ou foram capturados pelas Províncias Unidas. A Espanha não conseguiu fazer frente aos custos financeiros do exército resultantes da perda da Armada e em 1595, com a declaração de Guerra contra a Espanha por Henrique IV de França, tornou-se financeiramente falida, o que não acontecia pela primeira vez. 

As Tréguas

Sob pressão financeira e militar, em 1598, Filipe cedeu os Estados do Sul dos Países Baixos ao arquiduque da Áustria Alberto e sua mulher Isabel, na sequência do Tratado de Vervins com a França. Com isto, estava restaurado aproximadamente o território do Império da Borgonha. 

Em 1604, após James I de Inglaterra se tornar rei de Inglaterra, ele concluiu a paz com a Espanha no Tratado de Londres de 1604. 

1609 viu o início do cessar-fogo, chamado posteriormente de Trégua dos 12 anos, entre as Províncias Unidas e os Estados do Sul, mediado pela França e pela Inglaterra em Haia. 

Retoma da Guerra 

No seguimento da morte de Maurício, e na falta de uma paz permanente, o seu meio-irmão Frederick Henry retomou o conflito contra o sul. 

Os espanhóis enviaram em 1639 uma armada com vinte mil militares para a Flandres, que foi derrotada pelo Almirante Maarten Tromp. 

Paz

Em 1648, a Guerra terminou com o Tratado de Münster, que fez parte da Paz de Vestfália, que também terminou a Guerra dos 30 anos. 

Outros Desdobramentos

A Guerra dos Oitenta Anos teve grande impacto sobre a evolução da Arte da Guerra. Maurício de Nassau logrou reunir um grupo seleto de estudiosos preocupados em criar um exército capaz de vencer os famosos e compactos terços espanhóis. Destes estudos surgiu uma infantaria organizada em unidades menores, de formação tática menos profunda e com maior capacidade de fogo. 

O grande teste deste novo sistema tático veio com a Batalha de Nieuwpoort, travada em 1600. O resultado deste trabalho serviu de inspiração para o rei sueco Gustavo Adolfo.